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OS FALSOS JABORES O primeiro falso Jabor que recebi, em 2002, criticava o vencedor do concurso promovido pelo programa de TV Big Brother Brasil. Com o título de Faz Parte, começa com “Triste país este em que”. Há algumas aberturas de texto muito comuns nas seções de “cartas dos leitores” e que jornalistas, cronistas e outros profissionais da palavra não usam. Além de “triste país este”, podemos incluir nessa categoria os chavões “até quando teremos que” e “bem dizia De Gaulle”. Arnaldo Jabor não usa clichês. Para os que vivem em um mundo paradisiacamente distante dos modismos da comunicação e não sabem o que é o Big Brother (não o de 1984 de George Orwell, mas o da Endemol, empresa holandesa), explico: é uma competição entre pessoas que ficam presas em uma casa, observadas via televisão por quem quer que tenha interesse em vê-las. Periodicamente, um habitante da casa é despachado, pelos espectadores, de volta para a liberdade. O último a sair recebe um prêmio em dinheiro. A brincadeira é repetida em vários países. O artigo em questão lamentava que o julgamento do público, no Brasil, tivesse dado esse prêmio a um garoto musculoso com baixo nível de instrução e aparentemente nenhuma vontade de mudar essa condição. “Faz parte”, pronunciado com sotaque paulista do interior do estado, era uma das expressões freqüentemente ditas por ele. O texto a que nos referimos tem coisas como “Triste país este que nunca soube votar, que se deixa levar pelas aparências, pela casca, como se conteúdo fosse o que menos importasse...”. E antes disso: “Sem ter feito nada de bom, apenas por que fracassaram na tentativa do mal, são julgados inocentes. Apenas por cometerem incontáveis erros de português, são julgados puros. A desinteligência é confundida com qualidade, com algo a ser valorizado. Pela sua ignorância e falta de estudo, imediatamente julga-se que não teve oportunidades, sem levar em conta a realidade de fatos. Pessoas identificam-se e pronto. Alguém lhe perguntou por que não estudou? Não, apenas constatam que o brasileiro típico não tem estudo, é ignorante e ponto final”. O tom é esse: lamúrias e/ou acusações do tipo que soa como sabedoria crítica, em português sem erros. A respeito desse texto, Jabor escreveu, em O Estado de S.Paulo, em 23 de abril de 2002: “E agora tem outro [artigo] rolando chamado Faz Parte, em que um falso ‘eu’ humilha aquele rapaz que ganhou o Big Brother”. Ficou estabelecido, portanto, pelo próprio comentarista que não foi ele quem escreveu aquela catilinária. Perduraria a dúvida sobre o autor, se não fosse a revista Veja. Em 9 de julho de 2003, a Veja publicou uma nota com o título de Dá para acreditar?, apontando cinco textos de autoria nebulosa. Um deles é o Faz Parte, cujo “verdadeiro autor” está classificado em uma tabela como “desconhecido”. A coluna “atribuído a” identifica Jabor como a vítima. No número seguinte, de 16 de julho de 2003, na seção de cartas, em um box com o título O texto é meu!, alguns dos autores desses textos identificavam-se. Cozete Gelli Toledo, de São Paulo, assumia o Faz Parte: “Escrevi esse texto (com o título original ‘Vergonha de ser brasileira’) no forum do programa Big Brother Brasil I, no site da Globo.com. Algum tempo atrás, recebi por e-mail meu próprio texto assinado por Arnaldo Jabor. Descobri que ele mesmo já havia esclarecido não saber sua origem.”
Outro falso Jabor que circula por aí é na verdade de Tatiane Bernardi, que assina a coluna Neuras na revista TPM (cria da TRIP). Nesse caso a confusão é ainda mais incompreensível, porque a Tatiane escreve de forma indubitavelmente feminina. Não vou reproduzir na íntegra o texto que circula como se fosse de Jabor porque foge bastante à linha de O Escritor. Segue um trecho: “aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca, te chama de nomes que eu não escreveria, não te vira com delicadeza, não sente vergonha de ritmos animais.” Outro: “É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: ‘Que cê acha amor?’”. O texto está na net atribuído a Jabor, em 84 sites, e a Veríssimo noutros tantos. A Tatiane está identificada como a autora apenas em cinco sites! O original publicado na revista TPM termina assim: “Se você for chata, suas amigas perdoam. Se você for brava, as suas amigas perdoam. Até se você for magra, as suas amigas perdoam. Experimente ser amada.” A versão atribuída a Jabor tem ligeiras modificações. A frase final ficou: “só que tem uma coisinha...esperimente ser amada(o).... isso....seus amigos não perdoam....!!!!” É: “esperimente”, com s mesmo. E as três primeiras opções – chata, brava e magra – sumiram no cyberspace.
Na tela, muitos reclamam que Jabor parece pedante, arrogante. Por escrito é diferente. Nesta pesquisa sobre os apócrifos a ele atribuídos, encontrei com freqüência, nos muitos blogs que reproduzem seus textos, gente que afirma que gosta de ler o que ele escreve e não gosta de vê-lo na TV, apesar de ele dizer na tela exatamente o que escreveu nos jornais, na mesma semana. Simpático ou não para o público, é um dos mais cotados para a honra duvidosa de substituir o autor real. Recentemente, Arnaldo Jabor perdeu a paciência com mais um texto que não escreveu e pelo qual admiradores o perseguem, fervorosos. Escreveu por duas vezes nos jornais repudiando o texto que aparece em 589 sites como sendo de sua autoria e que fala de forma pejorativa das mulheres calipígias. Em 20 de julho deste ano, Jabor publicou Em trilha de paca, tatu caminha dentro. Alguns trechos: Hoje não tem estilo, não tem capricho, não tem figuras de retórica; nada de metáforas, metonímias, catacreses ou aliterações chiques. Hoje vai tudo em bruto, em rascunho, porque descobri na internet que sou uma besta quadrada mesmo (dirão meus inimigos: “Finalmente, ele se encontrou...”). Eu tenho traçado mal traçadas linhas há 13 anos (gente... eu escrevo em jornal desde 1991!...) numa média de 60 artigos por ano, o que totalizaria 780 artigos caprichados, e descubro aterrado na internet que sou um animal, um forte asno. Explico por quê. Ando pela rua e as pessoas me abordam: “Adorei o seu artigo que está circulando na internet! Maior sucesso!” Pergunto, já com medo: “Que artigo?” “Esse texto genial que você escreveu e que todo mundo me mandou. Chama-se ‘Bunda Dura’”. Imediatamente, sinto-me irreal: “Eu sou eu, ou sou outro?” Por um instante, penso que tenham renomeado algo que escrevi, mas respondo: “Não fui eu quem escreveu esse texto!” Aí, o admirador do texto apócrifo, o fã de um Jabor virtual se encolhe meio ofendido, flagrado em sua desinformação: “Mas... tem coisas legais...” Aí, o sujeito sai sorrindo amarelo e vira meu inimigo para sempre. Vejam o efeito da burrice “serial”: um burro me falsifica, um outro gosta e quem paga o pato sou eu. E fico mais invocado ainda porque capricho muito quando escrevo nos jornais, vocês nem imaginam. Considero o jornal um suporte genial, pois somos lidos por milhares toda semana e podemos falar do mundo ainda quente, sem a busca por transcendências perdidas, tanto assim que, se eu fizer um romance ou um poema épico em 11 cantos, tentarei escrever com a simplicidade leve que busco em meus pobres artigos. Mas o que realmente me encafifa é ver um clandestino simulando o que eu tenho de pior e também porque sou amado pelo que não sou. A primeira vez que saiu um troço desses (vou escrever de qualquer jeito...) eu encuquei, fiquei na maior bronca e esculachei o carinha que “me tinha metido nessa canastrice” (sacaram os cacófatos?), pois o dito texto esculhambava a linda amiga Adriane Galisteu. Companheiro leitor, (serei chulo) tu num sabe o bode que essa parada deu, por causa que o elemento apocrifador era um coleguinha jornalista que publicara aquilo num outro jornal, que eu não sabia. E há mais. Um deles é sobre “Amores mal resolvidos” onde acho frases profundas como “Você sabe, o amor acaba.” Ou “dor-de-cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote”... E há um outro chamado “Crônica do amor louco”, onde leio “pálido de espanto”: “O amor não é chegado em fazer contas...” ou “quando a mão dele toca tua nuca, tu derretes feito manteiga” ou “Ah... o amor, essa raposa...” Como vêem, são tantos os textos citados pelo próprio Jabor que é impossível falar de todos eles em uma página. O melhor é desenvolver sensibilidade para perceber as características de cada autor, em vez de achar que qualquer coisa mais ou menos bem escrita que rola na net pode ser de qualquer escritor notório. Não nos iludamos: escritores são todos diferentes uns dos outros.
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