Textos Apócrifos na Internet

DRUMMOND, TAMBÉM VÍTIMA DA INTERNET

Betty Vidigal

Não só Borges, Neruda e García-Marquez receberam a duvidosa honra de alguém querer dar-lhes a paternidade de um texto piegas e carregado de boas intenções. Nossos escritores, tanto os vivos quanto os mortos, também têm sido vítimas da praga que é atribuírem-lhes a autoria de textos medíocres.

Nem sempre houve má-fé por parte do primeiro divulgador da autoria espúria. Em alguns casos, é possível descobrir o que levou alguém a confundir-se e disseminar uma tolice como sendo produto da verve de um grande autor; identificar o mal-entendido que gerou o engano. Às vezes é possível a um pesquisador detectar a causa do erro.

Noutros casos, apenas os que têm intimidade com literatura percebem a mediocridade de algum texto que continua sendo passado de lista em lista de destinatários de e-mails, sempre acompanhado de elogios à “sabedoria” de algum escritor e da recomendação “repasse a toda a sua lista”. E repassam! Não é fácil convencer os admiradores de lugares-comuns de que aquilo não é alta literatura e de que nenhum bom escritor assinaria aquelas obviedades.

Como provar que alguém NÃO escreveu algo? A prova da existência de qualquer coisa é sempre incontestável, desde que a coisa em si seja exibida. Mas como demonstrar inequivocamente a não-autenticidade de um texto?

Enquanto um autor vive, ele mesmo pode defender-se. Alguns o fazem. Muitos, sabendo que é quase impossível conter a disseminação de platitudes de outrem como sendo obra sua, suspiram e conformam-se.

Esta inconformada que vos escreve toma aqui a defesa de alguns autores mortos, para que se divulgue ao maior número possível de pessoas que eles NÃO são os perpetradores dos textos que correm o globo com seu nome.

Focalizo neste artigo dois textos que são divulgados indevidamente como se de Drummomd fossem.

No caso do primeiro deles, consegui chegar à origem do engano. Trata-se do seguinte:

“RECOMEÇAR: "Não importa onde você parou.../ em que momento da vida você cansou... o que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar".

Circula também com o nome de Faxina da Alma. O coiso é longo. Eu estava até achando que era edificantezinho, bem mais aceitável que a média dos e-mails bem intencionados que correm a net, até chegar ao crédito absurdo: Carlos Drummond de Andrade.

Indignei-me. Nenhum grande escritor escreveria isso! Isso é coisa de conselheiro espiritual, não de poeta!

Fui revirar os sites de busca da net. Na época, não encontrei o autor. Hoje sei que é Paulo Roberto Gaefke, dono do site Meu Anjo e autor de diversos textos de auto-ajuda, alguns dos quais publicados no livro Decidi ser Feliz. Este texto específico está em   http://www.meuanjo.com.br/recomecar.php. Clicando em As mais lidas, no menu à esquerda, é o texto número 1. Curiosamente, o site tem um banner de patrocínio do Submarino, mas o livro de Gaefke não está à venda no site. Há um livro homônimo lá: Decidi Ser Feliz: Pequena Pedagogia para Viver, de Miguel O. Riquelme.

Na versão que circula pela internet em diversos blogs e que costuma ser mandada por e-mail, acrescentou-se a frase: “Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não, do tamanho da minha altura...”, citação do poema VII de O Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa – ou de Alberto Caeiro, um dos seus heterônimos. Paulo Roberto Gaefke não tinha posto essa citação no final de seu artigo.

Várias pessoas me mandaram a origem dessa citação. A primeira foi Jane Araújo, na comunidade Afinal, quem é o autor? do orkut, que pertence a Lucia Kerr Jóia; comunidade dedicada justamente a unir esforços para tirar dúvidas quanto à autoria dos muitos textos apócrifos. Adriano Bassetto e Martinho Gomes escreveram e-mails para o site Textos Apócrifos na Internet e Deivy Dimenstein deixou-me uma mensagem no scrapbook do orkut. Sim: eles têm razão, a citação é de Pessoa – e seu interesse mostra que são muitas as pessoas preocupadas com a veracidade da atribuição de um trabalho literário.

Outro texto que recebi como sendo de Drummond – um “poema” – tem o título de Bolero.

Neste caso, creio que a confusão deveu-se ao fato de que Drummond realmente tem um poema intitulado Bolero de Ravel. Imagino que alguém tenha recebido o poemeto, sem indicação de autoria, tenha gostado e procurado o grande poeta que o escreveu. Ao topar com um poema de Drummond que continha no título uma palavra coincidente, não se deu ao trabalho de verificar os versos.

Se o tivesse feito, veria que o Bolero de Drummond é... drummoniano. Bem diferente do que circula pela net, que é isto:

Segure minha mão / com firmeza, / mas com carinho. / Olhe nos meus olhos / bem fundo / enquanto eu te olho / no fundo dos seus olhos. / Enxergue minha alma / enquanto traduzo seus sonhos / e deixe que a gente flutue / bem juntos / em uma só energia. / Vamos dançar juntos / como se voássemos / em uma nuvem exclusiva / toda nossa. / E enquanto dançamos, / eu te beijo / e você me beija / e a essa altura / já não sou eu, nem você. / Somos nós dois, em um apenas. / Dois seres, dois corpos, / um sentimento, / uma dança, / uma alma única.... “

Este transcrevi, sim, na íntegra, não por suas qualidades literárias – inexistentes –, mas por ser curto o suficiente para não poluir excessivamente olhos e ouvidos do leitor exigente (falo em “ouvidos”, sim, pois todo poeta “ouve” mentalmente o ritmo do que lê).

Encontrei-o atribuído a “autor desconhecido” no site português http://www.terravista.pt/Ancora/2713/barao2_p.htm. Este endereço já saiu do ar, mas a preciosa arma contra o desaparecimento de referências que é o site www.archive.org, estadunidense, preservou-o. Pode ser acessado através de http://web.archive.org/web/20040716220657/http://www.terravista.pt/Ancora/2713/barao2_p.htm . Dentre as datas oferecidas no menu, é a página  publicada em 16 de julho de 2004.    Esta é uma das features mais úteis do archive.org: a Internet Archive Way Back Machine,  uma Máquina do Tempo para se retornar ao passado... Desde que se tenha o endereço completo desaparecido, é possível – com freqüência – recuperar seu conteúdo. 

Os sites brasileiros http://geocities.yahoo.com.br/pedro_mensagens_1/bolero.htm e http://www.poesiasguardiaodanoite.hpg.ig.com.br/xu2.htm (entre outros) dão a Drummond a autoria. É provável que a fonte dessa informação equivocada não seja a mesma para ambos os sites, pois num deles o nome do poeta aparece completo e no outro está apenas “Drummond”. Foi assim que o recebi, por e-mail, de uma querida amiga.

Que brasileiro andará pelos sites portugueses à procura de poemas e textos edificantes para atribuir-lhes uma autoria indevida? É um complô? (No entanto, isso não deve ter sido escrito originalmente por um português. Portugueses não dizem “enquanto eu te olho no fundo dos seus olhos.” Esta mistura de pessoas pronominais é coisa de brasileiro; e esta é de brasileiro do sudeste. Os do sul fazem outro tipo de mistura de pronomes; os do norte quase sempre usam tudo corretamente na terceira pessoa, o que acaba por soar como errado para os sudestinos.)

Para limpar-nos a alma da poluição dos pseudo-poemas acima, trago o brinde do verdadeiro Bolero de Carlos Drummond de Andrade:

         BOLERO DE RAVEL

     A alma cativa e obcecada

     enrola-se infinitamente numa espiral de desejo

     e melancolia.

     Infinita, infinitamente...

     As mãos não tocam jamais o aéreo objeto,

     esquiva ondulação evanescente.

     Os olhos, magnetizados, escutam

     e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa,

     está presa...

     Os tambores abafam a morte do Imperador.

(Deu pra sentir a diferença?)