Textos Apócrifos na Internet

Desmistificando a Linguagem dos Anjos

Esta é do tempo dos dinossauros: circula no Brasil desde 1998.

Todo o mundo já recebeu, por e-mail, em algum momento. Inclusive você, aposto.

Todo Natal, a mensagem volta, com uma nova apresentação.

Está em sites como Reflexão de Vida (clique para ouvir a musiquinha!) e Angels, o

 Portal dos Anjos[1]. No primeiro, ainda por cima, consta um Copyright 2001-2002,

com “todos os direitos reservados”! O contador de acessos indicava, quando acessei

a página agora[2], 5.295.238 hits... Imagino que o copyright seja para o desenho da

página, porque não pode ser referente ao texto. E muito menos ao som, que tem

direitos de reprodução de 1994, pertencentes a Amy J. Music.

 

Quem recebeu o e-mail, certamente recebeu também esta recomendação: “não

procure entender ou traduzir a letra desta canção porque esta é a linguagem dos

anjos”. seguem-se os versos supostamente místicos:

Yiôr mái rânnypämn sucrluplam,

Ham biam biam ken, yiôr máisfirin ái...!!!!

Yiôr mái kapkêikan puá

slucp clunpc xór,

Iá fór uâv mái áis!!!

 

Seria interessante descobrir quem foi a primeira pessoa a decidir que anjos falam

assim e que não devemos nem tentar entender o que está sendo cantado...

 

A conclusão a que se pode chegar é que os anjos são americanos do norte, porque

 essa língua é inglês dos Estados Unidos – perfeito, sim, mas com pronúncia

 infantil. Afinal, quando ouvimos uma criança de três anos falando português, não

 compreendemos perfeitamente? Assim, também, qualquer pessoa que tenha

 intimidade com o inglês falado nos Estados Unidos identifica as palavras cantadas

 – embora algumas delas se refiram a coisas que não existem aqui, por diferenças

 culturais[3], e outras sejam expressões idiomáticas que não se aprendem na escola.

 Imagino que a letra tenha sido transcrita cuidadosamente por algum clone daquela

 participante do Big Brother de cujo nome já não lembro, mas que cantava We are the World num inglês engraçado.

 

A criança cuja voz se ouve na gravação chama-se Amy. Eis o que ela canta, na

verdade:

You're my honeybunch, sugarplum

pumpy-umpy-umpkin, you're my sweetie pie

You're my cuppycake, gumdrop

snoogums-boogums, you're

the apple of my eye

 

Sugiro ouvir de novo a canção, agora sabendo a letra correta... A autora dos

 versinhos, letra e música, é Judianna Castle, mãe de Amy. Em seu site, Juddiana

 diz: “I wrote this song about all of the sweet names my mom and dad called me

 when I was little and all of the sweet names that I call my daughter Amy. I entitled

 it ‘You're My Honeybunch’ and gave it to her as a Valentine's day present”

 (“Escrevi esta canção com  todos os nomes carinhosos pelos quais meu pai e minha

 mãe me chamavam, quando eu era criança, e todos os nomes carinhosos pelos quais

 eu chamo minha filha Amy. Dei-lhe o nome de “Você é meu docinho” e foi meu

 presente para Amy no Valentine’s Day[4]”.

 

Numa tradução livre, a letra em português:

Você é meu docinho, ameixa caramelada,

abóbo-óbo-obra, você é minha tortinha doce.

você é meu bolinho, bala de goma,

iâmi-iâmi, você é

a menina dos meus olhos.

 

 

Explicando algumas expressões: 
Honeybunch é uma variação da expressão carinhosa honey. Americanos se
 chamam assim, uns aos outros, desde que se gostem. Aqui a gente diria, talvez,
 meu doce, ou docinho. Outras expressões equivalentes, segundo o dicionário on
 line Moby Thesaurus[5], são sugar, hon, honey, honey child, honeycomb,
 honeydew, honeypot. Sweetie pie seria, ao pé da letra, “torta docinha”. Mas
 equivale ao que chamamos de “tortinha doce”. Pumpkin é abóbora. Pumpy-umpy-
unpkin é um jeitinho manêro de cantarolar pumpkin... 
Cuppycake é aquele bolinho individual, do tamanho de uma xícara. Gumdrop
 seria “gota de goma”, ao pé da letra. É o que chamamos de “bala de goma”, ou
 “geleínha”, ou “jujuba”. Snoogums-boogums não é nada… É mais ou menos o
 barulho que se faz quando se mergulha a cara no pescocinho de um bebê,
 brincando, fingindo que se vai devorar a criança que, se tudo correr bem, vai rir
 muito. Traduzi por iâmi-iâmi, mas poderia ter traduzido por slurp-slurp... e aceito
 sugestões!

“Apple of my eye” equivale à “menina dos olhos”. Ambas as expressões são

 absurdas, pensando bem, já que olhos não têm “maçãs” – mas também não têm

“girls”.

The cuppycake song foi gravada por Amy no CD Balloons, em 1994, quando ela

 tinha três anos. Para ouvir trechos das outras faixas do disco, clique aqui. Todas

 as canções são de autoria da família. Balloons foi composta pela mãe de Juddiana

– avó de Amy, portanto – e é cantada no CD pelo pai da garota, o produtor Buddy

 Castle, no estúdio que a família têm em casa. Os Castle transformaram tudo isso

 em fonte de renda. Hoje em dia, pode-se até baixar o toque de celular “cuppycake”, por US$1,99.

 

Hoje Amy tem 14 anos. Se alguém se interessar por fotos dela em várias idades,

também estão no site.


 

[1] www.portalangels.com/mensagens_ e_poesias/cancao_dos_anjos.html

[2] 7 de dezembro de 2005

[3] desde que se considere a alimentação como parte da cultura

[4] Embora a gente traduza Valentine’s Day por “Dia dos Namorados”, é na verdade o dia São Valentim, 14 de fevereiro, e é comemorado com gentilezas e cartões para todas as pessoas de quem se gosta muito, inclusive filhos.

[5] http://onlinedictionary.datasegment.com/word/sugar