Textos Apócrifos na Internet
1- OS VIVOS TAMBÉM SOFREM...

2- AINDA VERÍSSIMO

3- A PROPÓSITO DO DESARMAMENTO

Os vivos também sofrem...

Betty Vidigal

I - Luis Fernando Verissimo

''Que fique estabelecido, portanto, que qualquer texto mal escrito, ou bem escrito mas controvertido, ou incoerente, bobo, nada a ver, pretensioso, metido a besta, pseudolírico, pseudoqualquer coisa, pseudopseudo, ou que de alguma forma possa dar cadeia ou problemas com autoridades, goianos ou outros grupos, com a minha assinatura, na Internet ou fora dela, não é meu. Todos os outros - inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário - são meus." Luís Fernando Verissimo[1]

Não só de autores mortos se alimenta a apocrifia. Dentre os vivos, Luis Fernando Verissimo, Mario Prata, Arnaldo Jabor, Ziraldo – entre outros – têm sido freqüentemente “apocrifados”. Os circuladores de textos – aqueles que enviam “para toda a sua lista” – gostam desses nomes, e coisas que começaram a rodar a net há alguns anos sem autoria identificável ou assinados por alguém de menos visibilidade são rapidamente alçadas à condição de “crônica” ou “manifesto” de um desses autores.

Poderia ser razão para envaidecer-se, alguém ter textos sendo-lhe impingidos porque seu nome agrega valor ao conteúdo. Mas a honraria é duvidosa: em geral, os textos atribuídos a esses nomes cuja assinatura leva livros às listas dos mais vendidos ficam muito abaixo da qualidade de sua produção.

Em raros casos, acontece de algo muito bom, escrito de maneira inteligente, passar a ser divulgado como sendo de Fulano porque Sicrano, que de fato o escreveu, não é “famoso”.

Dentre os brasileiros vivos que sofrem com a praga dos textos apocrifamente pespegados à sua autoria via internet, a mais freqüente vítima é Luis Fernando Verissimo. Sempre que um texto é engraçado e ao mesmo tempo bem escrito, podem apostar: em poucos meses passará a “ser” de Verissimo. E é incompreensível. Assim como não dá para ler um texto dele e cogitar que possa ter sido escrito por outra pessoa,  não dá para ler um texto de outra pessoa e acreditar que é dele.

Como convencer o grande público – e não estou me referindo ao público em geral, mas àquela restrita porcentagem de brasileiros que usam internet, pessoas instruídas; um “grande público” não tão grande assim – de que nem tudo que faz rir é escrito por Verissimo? O texto dele é tão característico que é espantoso que alguém no mundo se deixe engabelar.

Em 18 de janeiro de 2002, Verissimo escreveu no Estadão, sob o título “Apócrifos”: “Não sei se existem outros, mas há pelo menos dois textos rolando pela Internet  com a minha assinatura dos quais sou inocente.”

Verdade. O mais divulgado é “Um dia de Modess na vida de um homem”. Eu pretendia transcrever aqui a crônica inteira, pedindo aos mais sensíveis que tapassem os ouvidos antes ler, mas não me lembrava bem dela. Não é possível reproduzi-la integralmente neste veículo. Vou então escolher alguns trechos que dêem uma idéia da graça e da originalidade do verdadeiro autor. O título já indica o nonsense delirante que se seguirá – claro que há quem não ache graça nenhuma nisto:

“Para entender as mulheres é preciso um estágio...” ... “A primeira menção do assunto modess me causa uma vontade de gargalhar irracional. Pois eu resolvi que já era hora de encarar esse trauma de forma mais íntima. O primeiro passo foi comprar a pequena fralda na farmácia. Isso foi fácil. Na verdade, foi até divertido. Fiquei torcendo pra mulher do caixa perguntar, e eu responder de forma bem ‘casual’: – ‘É pra sua namorada???’ –‘Não. É pra mim!!!’ Só que ninguém nem tchuns...” “Na verdade, menstruar é uma parada normal. Acontece nas melhores famílias. Comprei um não-sei-o-que ‘mini’. Não ligo pra grifes, ainda mais de modess.” “...  e fui pra casa realizar o sacrifício que me tornaria um membro da classe masculina mais compreensivo com o sexo oposto. Chegando em casa, fui tentar abrir o pacote. Impulsivo por natureza, o homem não se dá ao trabalho de procurar linhas pontilhadas e, assim sendo, comecei abrindo errado. A abertura na horizontal tem um porquê, se adapta melhor à bolsa e deixa o absorvente mais à mão no caso de uma enxurrada inesperada. Mas eu ignorei, pois não uso bolsa. Ao retirar a peça do invólucro, você tem que descolar uma abinha para grudar na roupa íntima. Se a menstruação em si não lhe deixar "incomodada", essa almofada intrusa no seu chakra genital com certeza vai. “

“... não se tratava de uma cueca duplex com teto solar. Um pouco de paciência e um pequeno remanejamento espacial e tudo estava resolvido. A primeira coisa que se pensa [...] é: "Será que está marcando?". Por isso é essencial que você faça tudo com a companhia de um aliado. Assim, você vai poder contar com um correspondente nos países baixos, que vai lhe avisar caso o modess cisme em querer se destacar... “ [...] Ao final de minha jornada, foi um alívio zunir o modess no lixo.”

Sejam francos: dá para acreditar que é de L. F. Verissimo, mesmo se for esse o nome sob o texto? Na net, há 75 sites que o atribuem a ele e 68 em que o texto figura como sendo “de autor desconhecido”. Só que o autor, embora escreva sob pseudônimo, não é desconhecido.

Lembro bem de quando recebi isto pela primeira vez. A autoria não estava indicada. Escrevi – ainda rindo muito – para a amiga que mandou o e-mail, perguntando quem tinha escrito essa maluquice tão engraçada. Ela não sabia, e comecei a escarafunchar a net. Depois de algumas batidas de nariz em porta errada, encontrei a origem.

O texto é do site 02 Neurônio[2], de três jovens jornalistas – Nina Lemos, Giovana Hallack e Raquel Affonso. O autor desta crônica assina “Rolinha”. Lá estavam, inclusive, as fotos hilariantes do Rolinha testando o modess. Escrevi para as meninas elogiando a brincadeira e perguntando quem é ele. A resposta foi apenas: “O Rolinha é tudo[3], né?”

Ele é responsável pelo ponto de vista masculino no site, e sua seção chama-se, como não podia deixar de ser, 02 Testículo. Lá está a identificação dele: Rolinha é amigo e consultor do 02 neurônio para assuntos machos. Colabora com o zine[4] desde os tempos da cola Pritt e chegou até a passar um dia usando modess para contar para a raça masculina como é que era! Fundou o zine 02 Testículo, que só teve uma edição que hoje em dia vale uma fortuna, por ser artigo de colecionador.”

Quem usa a internet sabe que nada chega por e-mail uma vez só. Eu já tinha recebido esse texto mais umas duas vezes sem autoria, quando veio um dia com L. F. Verissimo indicado como autor. Desde então tenho tentado convencer os enviadores de e-mails, por argumentos lógicos, de que isto não pode ser dele. É tarefa inglória. Acreditam sinceramente que, se for engraçado, o texto é de Verissimo.  E fim de papo. Por outro lado, recebi esta aqui, que é dele, sem crédito ao autor:

                     Uma Paixão Nacional

 Ela disse "Você me ama mais do que tudo?" e ele disse "Amo".

 Ela disse "Paixão, paixão?" e ele disse "Paixão, paixão".

 E reforçou "Mesmo".

 Ela: "Mais do que tudo no mundo todo?"

 Ele: "No mundo todo e fora dele".

 Ela: "Não acredito".

 Ele: "Faz um teste".

 – Eu ou fios de ovos.

 – Você, fácil.

 – Daqueles com calda grossa, que a gente chupa o fio e a calda escorre pelo queixo.

 – Prefiro você.

 – Futebol.

 – Não tem comparação.

 – Você está caminhando, vem uma bola quicando, a garotada grita “Devolve tio!” e você domina, faz dezessete embaixadas e chuta com perfeição.

 – Prefiro você.

 – Internacional e Milan em Tóquio pelo campeonato do mundo, passagem e entrada de graça.

 – Você vai junto?

 – Não.

 – Pela televisão se vê melhor.

 – Faz muito calor. Aí chove, aí abre o sol, aí vem uma brisa fresca com aquele cheiro de terra molhada, aí toca uma música no rádio e é uma nova do Paulinho. É Sexta-feira e a televisão anunciou um Hitchcock sem dublagem praquela noite, e o Lula está dando certo.

 – Você.

 – Voltar à infância só pra poder pisar na lama com o pé descalço e sentir a lama fazer esguish entre os dedos.

 – Você, longe.

 – A Sharon Stone telefona e diz que é ela ou eu.

 – Que dúvida. Você.

 – Cheiro de livro novo. Solo de sax-alto. Criança distraída. Canetinha japonesa. Bateria de escola de samba. Lençol récem-lavado. Hora no dentista cancelada. Filme com escadaria curva. Letra do Aldir Blanc. Pastel de rodoviária.

 –  Você, você, você, você, você, você, você, você, você, e você, – respectivamente.

 – A Sharon Stone telefona novamente e diz que se você se livrar de mim ela já vem sem calcinha.

 – Desligo o telefone.

 – Fama e fortuna. A explicação do universo e do mercado de commodities, com exclusividade. A vida eterna e um cartão de crédito que nunca expira.

 – Prefiro você.

 – Uma cerveja geladinha. A garrafa chega estalando. No copo, fica com um quarto de espuma firme. O resto é ela, só ela, dizendo 'Vem'.

 – Hummm...

 – Como, 'hummm'? Ela ou eu?

 Silêncio. Depois:

 – Qual é a marca?

    Seu cretino!

 

(Tomei uma liberdade: troquei o nome do presidente, que era Itamar quando a crônica foi escrita. Espero que Verissimo não se importe, aposto como ele quer que Lula dê certo.)

Esta crônica – uma delícia, né? – recebi de um amigo a quem informei quem a escreveu. E ele – para meu pasmo! – respondeu que tinha recebido com a identificação correta, mas que agora tira o nome do autor de qualquer coisa que receba, porque sempre acabo dizendo que aquele autor não escreve desse ou daquele jeito! Perguntei: “mas não tá na cara que é Veríssimo?” Disse que não, que não consegue distinguir um autor de outro... De modo que “toda a lista” dele já recebeu esta crônica sem crédito. E assim a devem estar reenviando por aí. E a culpa é minha.


 

[1] http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2002/01/18/pol005.html

[2] http://cf1.uol.com.br:8000/02neuronio/default.asp
[3] Para quem não sabe, “é tudo” significa “é muito bom”.
[4] Um “zine” é um fanzine. O termo fanzine surgiu da contração das palavras inglesas fanatic (fã) e magazine (revista). Essa contração foi feita por Russ Chauvenet em 1941 para dar nome às publicações artesanais que começavam a surgir nos Estados Unidos, .com artigos e curiosidades sobre ficção científica, pequena tiragem e intenso tráfego/distribuição pelo correio. Hoje os fanzines são ligados à atividade cultural, ou de variedades: música, poesia, cinema, quadrinhos, literatura.

 

 

II – Ainda Verissimo

Betty Vidigal

 

O último artigo desta série – último no sentido de “o mais recente” e não de “o artigo final” – começava com um trecho de uma declaração de Luis Fernando Verissimo, publicada no Estadão de 18 de janeiro de 2002. Agora, a íntegra dessa declaração:

 

Apócrifos: Não sei se existem outros, mas há pelo menos dois textos rolando pela internet com a minha assinatura dos quais sou inocente. Um deles, que compara boa parte da música popular brasileira a drogas e instrui as pessoas a evitar, entre outras coisas, cantores e compositores de Goiânia, já me valeu algumas cartas indignadas de Goiás, como era de se esperar. Respondi às cartas, expliquei o que tinha acontecido, acho que tudo ficou esclarecido, mas pretendo evitar músicos de Goiás durante algum tempo, por saudável precaução.

 Enquanto as possíveis conseqüências de textos apócrifos forem só protestos e ameaças de desmembramento, tudo bem. Mas e se o tal de Apócrifo inventar de difamar alguém com a minha assinatura? Não sei até que ponto é possível descobrir a origem de um texto lançado na Internet, ou se, até conseguir provar que o texto da Internet não é meu, eu não serei processado, obrigado a pagar por danos morais além dos custos processuais, e estarei arruinado, reduzido à mendicância ou, pior, a um emprego público, para poder sustentar a família e o hábito da bebida a que certamente recorrerei para esquecer o desgosto, e pagar o quartinho alugado na Rua da Amargura sem número, fundos, tudo pelo que não fiz, ou não escrevi. Imagine se alguém inventa de começar a criticar, sei lá, o presidente da República, usando o meu nome!

 Que fique estabelecido, portanto, que qualquer texto mal escrito, ou bem escrito mas controvertido, ou incoerente, bobo, nada a ver, pretensioso, metido a besta, pseudolírico, pseudoqualquer coisa, pseudopseudo, ou que de alguma forma possa dar cadeia ou problemas com autoridades, goianos ou outros grupos, com a minha assinatura, na Internet ou fora dela, não é meu.

 Todos os outros - inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário - são meus. (Luis Fernando Verissimo)

Para quem nunca leu o texto intitulado Diga Não às Drogas, a referência aos “cantores e compositores goianos” ou aos “músicos de Goiás” parecerá misteriosa. Ela se deve a isto – que circula também com o título de Depoimento Emocionado de Luiz Fernando Veríssimo Sobre sua Experiência com as Drogas (e não foi, é claro, escrito por ele).

 “Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de "experimenta, depois quando você quiser é só parar..." e eu fui na dele. Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", da terra, que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em seguida um do "Leandro e Leonardo".

 Achei legal, uma coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de "amigo" e acabei comprando pela primeira vez.

 Lembro que cheguei na loja e pedi: - Me dá um Cd do Zezé de Camargo e Luciano. Era o princípio de tudo! Logo resolvi experimentar algo diferente e ele me ofereceu um Cd de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisa leve... Banda Eva, Cheiro de Amor, Netinho, etc. Com o tempo, meu amigo foi me oferecendo coisas piores: É o Tchan, Companhia do Pagode, Asa de Águia e muito mais.

 Após o uso continuo eu já não queria saber de coisas leves, eu queria algo mais pesado, mais desafiador, que me fizesse mexer os quadris como eu nunca havia mexido antes, então, meu amigo me deu o que eu queria, um Cd do Harmonia do Samba. Minha bunda passou a ser o centro da minha vida, razão do meu existir. Eu pensava só nesta parte do corpo, respirava por ela, vivia por ela! Mas, depois de muito tempo de consumo, a droga perde efeito, e você começa a querer cada vez mais, mais, mais...

 Comecei a freqüentar o submundo e correr atrás das paradas. Foi a partir daí que começou a minha decadência. Fui ao show e ao encontro dos grupos Karametade e Só Pra Contrariar, e até comprei a Caras que tinha o Rodriguinho na capa. Quando dei por mim já estava com o cabelo pintado de loiro, minha mão tinha crescido muito em função do pandeiro, meus polegares já não se mexiam por eu passar o tempo todo fazendo sinais de positivo.

 Não deu outra: entrei para um grupo de pagode. Enquanto vários outros viciados cantavam uma musica que não dizia nada, eu e mais outros 12 infelizes dançávamos alguns passinhos ensaiados, sorriamos e fazíamos sinais combinados.

 Lembro-me de um dia quando entrei nas Lojas Americanas e pedi a coletânea "As melhores do Molejão". Foi terrível!! Eu já não pensava mais!! Meu senso crítico havia sido dissolvido pelas rimas miseráveis e letras pouco arrojadas. Meu cérebro estava travado, não pensava em mais nada.

 Mas a fase negra ainda estava por vir.

 Cheguei ao fundo do poço, ao limiar da condição humana, quando comecei a escutar popozudas, bondes, tigrões, motinhas e tapinhas. Comecei a ter delírios, a dizer coisas sem sentido. Quando saía à noite para as festas pedia tapas na cara e fazia gestos obscenos. Fui cercado por outros drogados, usuários das drogas mais estranhas que queriam me mostrar o caminho das pedras...

 POR FIM NO ÚLTIMO ESTAGIO ESTAVA OUVINDO SERGINHO E SUA ÉGUA POCOTÓ Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: a droga limpa.

 Hoje estou internado em uma clínica. Meus verdadeiros amigos fizeram a única coisa que poderiam ter feito por mim. Meu tratamento está sendo muito duro: doses cavalares de Rock, MPB, Progressivo e Blues. Mas o médico falou que eu talvez tenha de recorrer ao Jazz, e até mesmo a Mozart e Bach.

 Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarem a esse tipo de droga. Os traficantes só pensam no dinheiro. Eles não se preocupam com a sua saúde, por isso tapam a visão para as coisas boas e te oferecem drogas. Se você não reagir, vai acabar drogado : alienado, inculto, manobrável, consumível, descartável, distante; vai perder as referências e definharn mentalmente. Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique esportes e, na dúvida, se não puder distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte:

Não ligue a TV no domingo a tarde; -- Não escute nada que venha de Goiânia ou do interior de São Paulo; -- Não entre em carros com adesivos "Fui..."; -- Se te oferecerem um Cd procure saber se o indivíduo foi ao programa da Hebe ou ao Sabadão do Gugu; -- Mulheres gritando histericamente é outro indício; -- Não compre um Cd que tenha mais de 6 pessoas na capa; -- Não vá a shows em que os suspeitos façam passos ensaiados; -- Não compre nenhum Cd em que a capa tenha nuvens ao fundo;! -- Não compre nenhum Cd que tenha vendido mais de um milhão de cópias no Brasil; -- Não escute nada em que o autor não consiga uma concordância verbal mínima. Mas principalmente, duvide de tudo e de todos. A vida é bela!!!! Eu sei que você consegue!!! Diga não às drogas!!

 

Engraçadinho, não é? Pelo menos para quem tem o mesmo gosto musical de quem escreveu o texto. Quem não tem revolta-se, às vezes. Mas o fato é que, agradando ou não aos troianos, isto não foi escrito por L. F. Veríssimo!

 

A revista Veja, na edição de 9 de julho deste ano, publicou uma nota na seção “Guia” mencionando vários artigos que circulam, pela net, atribuídos a quem não os escreveu. Este foi um dos contemplados. No número seguinte, vários verdadeiros autores – de outros textos – identificaram-se. Mas esta brincadeira com a música chamada “brega” não teve a autoria reivindicada por ninguém.

 

Quando Veríssimo diz: “Todos os outros – inclusive alguns com outras assinaturas, até prova em contrário – são meus.”, refere-se, por certo, às inúmeras crônicas que escreveu e que, justamente por serem tão divertidas, tornaram-se “de domínio público” e foram transformadas em piada, em versões abreviadas que mantêm o sentido geral sem manter a sutileza dos diálogos verissimianos.

 

Como este, por exemplo:

Motel

Luis Fernando Verissimo

Mirtes não se aguentou e contou para a Lurdes:

– Viram teu marido entrando num motel.

A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio. Depois pediu detalhes.

– Quando? Onde? Com quem?

– Ontem. No Discretissimu's.

– Com quem? Com quem?

– Isso eu não sei.

– Mas como? Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?

– Não sei, Lu

– O Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.

Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo. E contou por que.

– Mas que historia é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel. Era você.

        Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir. Discretissimu's! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.

– Pois então?

– Pois então que eu tenho que deixar você. Não vê? É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada
pelo marido e não reagir.

– Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!

– Mas elas não sabem disso!

– Eu não acredito, Lurdes. Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?

– Vou.

Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou. Estava sombrio.

– Acabo de receber um telefonema – disse.– Era o Dico.

– O que ele queria?

– Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.

– O que?

– Você foi vista saindo do motel Discretissimuts ontem, com um homem.

– O homem era você.

– Eu sei, mas eu não fui identificado.

– Você não disse que era você?

– O que? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?

– E então?

– Desculpe, Lurdes, mas...

– O que?

– Vou ter que te dar um tiro.

 

Este diálogo, criado por Veríssimo já há muitos anos e publicado entre as Comédias da Vida Privada, é contado hoje em dia, abreviadamente,
como “piada” – e em várias línguas! Os performers piadistas serão capazes de dizer, provavelmente, que Veríssimo apenas elaborou algo
que já existia há muito tempo, em forma de piada. Quando, na verdade, o que se passa é o contrário: ele é que inventou esta estória.

 

A PROPÓSITO DO DESARMAMENTO... (Verissimo?)

Betty Vidigal

Eu tinha lido isso há alguns anos, como piada – e piada não tem dono. Portanto, não estava atribuída a nenhum autor.
Na semana passada, chegou em e-mail de Suely Furukawa (sfurukawa@uol.com.Brasil), que duvidava de uma suposta autoria:
Betty, recebi o texto abaixo de mais de uma fonte, com autoria atribuída a Luis Fernando Verissimo.
Meu instinto diz que não é dele. Já busquei na Internet de todas as formas que me ocorreram e não cheguei a uma conclusão.

Nos dias seguintes, recebi várias vezes a mesma estorinha, enviada por diversas outras pessoas que recomendavam: “Distribuam essa crônica.
Ela é curtíssima e excelente para se pensar em desarmamento”. E o autor, claro, era L.F.V., segundo alardeavam esses repassadores.

Aí vai:

“Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. 
Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro. 
Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, 
mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali, espiando tranqüilamente.
 
Liguei baixinho para a polícia informei a situação e o meu endereço.
 
Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa. 
Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.
Um minuto depois liguei de novo e disse com a voz calma:
 
- Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. 
	Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. 
	O tiro fez um estrago danado no cara!
 
Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate , 
uma equipe de TV e a turma dos Direitos Humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.
 
Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado. 
Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.
 
No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:
 
- Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.
 
Eu respondi:
 
- Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.”
 
Pobre Verissimo. Se alguém insistir em que é dele, podem gritar “Truco!”. 
 
Se alguém cantar uma música inédita da Tati Quebra-Barraco e disser que é do Ary Barroso, você acredita? Não? 
Mas como você sabe que não pode ser dele? Afinal, se for inédita... será que Ary Barroso não compôs um funk, e ninguém sabe disso?
Mas não vamos nos ater a essa coisa indefinível que é “conhecer o estilo” de um escritor. Vamos a uma investigação concreta. 
Antes de começar, quero salientar que perceber um homem andando “sorrateiramente” pelo quintal da sua casa e olhando 
pela janela não indica que seja, necessariamente, um ladrão. Pode ser um vizinho bisbilhoteiro, um maluco desorientado 
(já apareceu um no meu jardim, por exemplo, e, quando chamei a polícia, disseram: “Ih, é o matusco. Acabamos de soltar ele...” 
Mas vieram buscá-lo, sem muita demora), pode ser um namorado ciumento, um voyeur, um assassino cheio de princípios éticos 
que jamais roubaria alguma coisa, pode ser um desses que “estupra mas não rouba”... Assim, quem diz que “eles prenderam 
o ladrão em flagrante” pressupõe intenções que o invasor talvez não tivesse. Um escritor não chamaria um mero intruso de ladrão.
Além disso, só um não-profissional da escrita dispararia uma pérola como “eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava 
olhando tudo com cara de assombrado. O correto (deixando-se de lado a discussão das intenções do estranho) seria 
“eles prenderam em flagrante o ladrão, que ficava olhando para tudo com cara de assombrado”. 
Afinal, quem olha é o ladrão – e não o “flagrante”. Dá pra entender o que o autor do texto quis dizer? Dá, claro, perfeitamente... 
Quis dizer, mas não disse.
Um escritor não cometeria esse erro. Um escritor pode usar gíria, inventar palavras, pode torturar a sintaxe, 
mas faz isso de forma tal que toda a bagagem de conhecimento da língua fica evidente, assim como um rabisco de Picasso deixado 
num guardanapo de papel evidencia que aos sete anos ele podia reproduzir um Caravaggio...
 
Deixem-me apontar algumas outras falhas que indicam que esse texto foi produzido por algum não-profissional. Os grifos são meus.
1)  “numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa. [...] . Como minha casa era muito segura...” 
“Numa noite dessas” indica um fato recentemente acontecido. Nesse caso, o narrador, mesmo que fictício, 
diria: “Como minha casa é muito segura”, e não “era”. Ou será que ele se mudou logo depois do evento, com medo de outros “ladrões”? 
2)  “mas era claro que eu não ia deixar...” – mesmo quando o relato se dá no passado, o correto seria: “mas é claro que eu não ia deixar...”. 
Porque continua sendo claro que ele não deixaria...
3)  “Liguei baixinho para a polícia.” Ninguém “liga baixinho”! Ou liga-se ou não se liga, não tem como “ligar baixinho”. 
Você pode ligar e falar baixinho, ou pode ligar disfarçadamente, de forma a impedir que quem está do lado de fora perceba. 
Um escritor diria: “liguei para a polícia e disse baixinho” – ou qualquer outra coisa que faça sentido. 
 
Estamos apenas no segundo parágrafo e já encontramos três erros (sem falar nas vírgulas...). Melhor parar por aqui. 
O texto todo tem deslizes que Verissimo jamais cometeria. Ele escreve, sempre, em magnífico português. 
Mas há 279 referências a esse texto na internet, segundo o Google, e 185 delas atribuem a autoria a ele. É o favorito dos apocrifadores brasileiros. 
Qualquer coisa engraçada tem alta probabilidade de ter o autor jogado pra escanteio e Verissimo sapecado em seu lugar, antes de ser “repassada”. 
E se o texto, além de engraçado, for de “domínio público” aumenta a probabilidade de “virar” do Verissimo. 
 
Mesmo depois de feitas todas as correções, as frases ainda soavam estranhas. Ao reler, percebi que não estão em português coloquial. 
Mas estariam, se fossem em inglês. Traduzi o início e procurei no Google: “I’m a light sleeper, and one of these nights...”. Nada. Então fui para o final. 
Embora não haja nada de errado em “Pensei que tivesse dito que não havia ninguém disponível.”, não é assim que alguém falaria com o “tenente”. 
Diríamos “Pensei que o senhor tivesse dito que não tinha… etc”. Ou “Não tinham dito que … etc?”. Ou: “Disseram que…”

Traduzi para o inglês a frase do texto: “I thought you said there was nobody available”. Bingo! Apareceram 2.160 sites!
Trata-se, portanto, de uma tradução, encompridada com diversos detalhes pelo tradutor brasileiro.
Em inglês, a estória aparece como sendo fato verídico, noticiado pelo jornal Mississippi Star.Teria acontecido
com um certo George Phillips de Meridian, Mississippi. No Brasil, dizer que algo foi escrito por Verissimo aumenta o valor do texto.
Nos Estados Unidos da América, o que tem esse efeito é dizer que um jornal – qualquer jornal – publicou a história.

O site www.snopes.com, dedicado a pesquisar lendas urbanas, deu-se ao trabalho de contatar o Mississippi Star e perguntar se
de fato essa nota fora publicada. Receberam uma negativa enfática (www.snopes.com/crime/safety/response.htm ).

Em português, 40 transcrições da estorinha ostentam o título de Como Chamar a Polícia. Em inglês, também, o título na maior parte
dos sites é How to Call the Police. No entanto, segundo o Snopes, algumas receberam títulos como How to Work the System ou
How to Speed Up a 911 Call
(ou Como Apressar um Chamado de Emergência).

Mas o Snopes conta que um fato semelhante ocorreu de fato. Paul Weymouth, um pastor de 63 anos, em Odessa, no Texas,
chamou a polícia porque achava que sua igreja, a Heights Christian Church, tinha sido roubada. Como a polícia demorasse, depois de 40 minutos
ele ligou de novo, fazendo-se passar por um ladrão e dizendo que estava com reféns dentro do templo e pretendia matá-los.
Claro que a polícia apareceu logo. O pastor foi preso. Depois de pagar uma fiança de 1.000 dólares, aguarda o julgamento em liberdade.

Por que ele foi preso? Porque supõe-se que, ao inventar uma mentira como essa, o mentiroso desvia a polícia de coisas mais urgentes.
Se você denuncia que seu carro foi roubado, por exemplo, você pode achar que investigar isso é a coisa mais importante do mundo,
mas a polícia dará preferência a atender uma briga entre marido e mulher, porque nesse caso pode haver risco de vida para um dos dois,
e vidas humanas têm prioridade sobre bens materiais. Da mesma forma, uma denúncia de seqüestro tem prioridade sobre “estou ouvindo
barulhos estranhos no jardim”. Ao inventar uma mentira para apressar a polícia, você (ou o George, ou o pastor Weymouth) pressupõe que
os policiais “não estão fazendo nada”, o que, em geral, não é verdade.

De qualquer forma, o texto não é de Luis Fernando Verissimo. É uma tradução enriquecida com uns detalhezinhos.
Afinal – sejamos acacianos! – “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

 
 
Adendo

O site Caros Ouvintes, na página  http://www.carosouvintes.com.br/index.php?option=content&task=view&id=333&Itemid=56 ,
apresenta desta forma o texto sobre como chamar a polícia:

 

“Tatiana Cobbett, assinante honoris causa deste boletim, conta como seu amigo, Rossano Cancelier,
passou por uma experiência inusitada, mas não imprevisível. Segue aqui o relato de próprio punho, como ela mesma declara.
Tomara que não, mas se você precisar, eis como agir”.

 

Devido a esse registro, muitas pessoas que conhecem o bem o estilo de LFV e percebem que o texto não pode ser dele
estão “corrigindo” erradamente a autoria por aí. Talvez o violonista Rossano Cancelier tenha sido mesmo o responsável
por trazer esta história para o Brasil, mas dizer que ele é o autor vai resultar no mesmo tipo de erro que levou muita
gente a dizer que  Instantes era de Nadine Stair, ao constatar que não podia ser de Borges.
E, no entanto, o autor era Don Herrod... 

B. V.