Textos Apócrifos na Internet

POCOTÓS?

Betty Vidigal

José Nêumanne me escreve, apocrifado da vida:

betty, nêga,

o primeiro apócrifo ninguém esquece

olhe o meu aí, em anexo

[...]

zé nêumanne”

O e-mail é quase um poema, com um ar assim de Manuel Bandeira. Observem-se as rimas toantes: esquece/anexo; nêga/nêumanne. Aposto como ele nem percebeu que escrevera tão liricamente, ao protestar contra a apocrifia.

José Nêumanne Pinto – certamente todos sabem – é jornalista, editorialista do Estadão e teve publicado em 2004 o romance O Silêncio do Delator, premiado pela Academia Brasileira de Letras. Eu recebera na véspera o artigo de que ele fala no e-mail. O título é Brasileiros Pocotós. Quando o recebi, enviado por um amigo de Bom Jesus (aquela linda cidade dos invernos friíssimos), tinha ainda a assinatura do verdadeiro autor, Julio Clebsch.

Trata-se de um professor do Paraná, editor da revista Profissão Mestre. O artigo dedica-se a lamentar o sucesso do programa de TV Big Brother, por ser “um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos participantes e, conseqüentemente, daqueles que só bebem nessa fonte.”. À parte o fato de que deveria ser “de quem dele desfruta”, imagina-se que um mestre provavelmente está dizendo o que se espera dele, ao apontar os defeitos de um tipo de diversão que a maioria da população jura considerar medíocre – quem assiste aos Big Brothers são “os outros”. Talvez seja um viés de professor, isso de querer que entretenimento faça algo além de entreter. Há quem se entretenha jogando pebolim e há quem se divirta jogando xadrez. Em ambos os casos, o objetivo é espairecer, não adquirir conhecimento – exceto o conhecimento cada vez mais profundo da forma de diversão que se escolheu.

Os verdadeiros críticos dos nossos costumes, como Roberto da Matta, antropólogo e cientista social, que escreve no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo às quartas-feiras, têm outra leitura do sucesso que o BBB faz aqui – apesar de fazer sucesso também noutros países. Em seu artigo O que o “BBB” diz do B, de 16 de fevereiro, ele constata que “em vez de individualizar ao máximo a competição e o individualismo, como ocorre em outros países, o que vemos nos BBs nacionais é o nascimento de um forte e emocional personalismo quando os competidores choram de saudade de casa ou, como no caso atual, se aglutinam em torno de um líder”.  Ele mostra que, ao votar expondo suas preferências no Big Brother, “o brasileiro revela como tem horror ao autoritarismo e às propostas arbitrárias e, acima de tudo, à arrogância associada ao poder.”

É uma interpretação bem diferente da que foi dada pelo professor Júlio para aquele jogo de relações humanas entre pessoas confinadas em uma casa, disputando um prêmio em dinheiro.

 

O título do artigo de Julio Clebsch, homenageia o jornalista Luciano Pires, que publicou em 2003 o livro Brasileiros Pocotó: Reflexões sobre a Mediocridade que Assola o Brasil. (Observação: o “pocotó”, aqui, não tem “s” final e nem precisa ter. Indica a categoria de brasileiros a que ele se refere, e não precisa ser flexionado; é como dizer “brasileiros [do tipo] pocotó”). O texto da contracapa do livro de Pires foi transcrito no artigo do professor Clebsch. Ambos irmanam-se no desgosto com a suposta ignorância de seus compatriotas – todos os outros brasileiros: Você tem a sensação de que o Brasil está ficando burro? Pois eu, sim! Daí este livro”, diz a contracapa.

O artigo de Clebsch cita também Roberto “Reccinella”, que calculou quanto a Rede Globo deve ter lucrado com os telefonemas recebidos em cada “paredão” do Big Brother. Recinella, com um c, ministra palestras na área de vendas. Sua indignação parece vir mais do alto valor que a emissora de TV supostamente faturou com as ligações telefônicas do que com a alegada falta de qualidade do programa. De qualquer forma, tanto o título do artigo como o do livro referem-se à música Egüinha Pocotó, do compositor de funk  Mc Serginho, sucesso em 2003.

A canção foi muito tocada e muito criticada “por demonstrar a ignorância do público”. Não se levou em consideração que foi composta pelo funkeiro para sua filha Carol, como uma brincadeira, e o sucesso que fez se deu, em grande parte, na faixa etária abaixo dos doze anos.

Rodrigo Manzano, que foi editor-chefe da revista Imprensa, edita o jornal O Metropolitano e é professor de jornalismo, percebeu uma curiosa semelhança entre a letra dessa canção que tanta indignação provoca e a de um dos clássicos da Bossa Nova:

“Vou mandando um beijinho / pra filhinha e pra vovó / só não posso me esquecer / da minha egüinha pocotó.”

“Eis aqui este sambinha / feito numa nota só / outras notas vão entrar / mas a base é uma só.”

Manzano conta que estava no metrô, ouvindo o ruído das rodas nos trilhos, e de repente percebeu que elas não diziam “café com pão / café com pão / café com pão / Virge Maria que foi isso maquinista?”, como imaginava Bandeira, mas cantavam, em vez diso, a Éguinha Pocotó e o Samba de Uma Nota Só.

Sacrilégio? A semelhança entre as letras das duas canções é inegável: heptassílabos – ou redondilhas maiores, se preferem –, o primeiro verso terminado em diminutivo, o terceiro com um verbo no infinito, rimas em ó no segundo e no quarto verso. A diferença é que Mc Serginho pôs oito sílabas (falo aqui de sílabas poéticas, é claro) na última linha – o que tanto pode ser fazer dela um verso de pé quebrado como pode ser visto como liberdade rítmica.

Não pretendo chegar ao ponto de levar a sério a brincadeira que circulou pela internet, imaginando questões de literatura para o vestibular de alguma universidade em algum ano do futuro, ainda neste século.  Alguns sites situam a piada na UniCamp, no ano de 2046; outros, na UnB, no ano de 2050. Uma das questões seria: “Compare o estilo da obra de Mc Serginho com os autores clássicos do século XX e justifique a relevância de sua obra.”. Quem quiser o texto integral do “vestibular”, pode acessá-lo em 155 sites. Indico um:

http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/textos/216.htm .

Toda essa digressão afastou-nos do assunto original, o apocrifamento de Nêumanne. Retomando: ele enviou aquele mesmo texto que eu recebera na véspera, mas da forma como o chegou até ele. Ou seja, com a introdução:

“CAROS AMIGOS

Quando tiver um tempo LEIA

Artigo de um ótimo jornalista. Leiam. Vale a pena.”

E no final, a assinatura apócrifa:

 “Jose Neumani Pinto / Radio Jovem Pan”.

Assim mesmo, com “i” no final, Jose sem acento. No dia seguinte, também recebi essa versão modificada. O nome do professor Clebsch tinha sido eliminado por algum internauta que preferiu atribuir o texto a um autor de sua preferência. Certamente por admiração, escolheu Nêumanne para vítima.

Na internet aparecem 273 referências ao texto; 42 atribuem-no ao “Neumani”, 11 a Neumane (alguém corrigiu o “i” antes de passar adiante, mas não se lembrou do duplo “n”), 48 reconhecem a autoria de Júlio Clebsch. Os outros não têm indicação de autor nenhum, embora alguns refiram corretamente a fonte como “Profissão Mestre, ano 6, número 10”. Alguns blogs, no entanto, parecem ter a intenção de fazer crer que  o dono daquele blog é o autor dessa pérola de bom-senso.

Fica aqui esclarecido: José Nêumanne Pinto, de sintaxe tão requintada, de opiniões sempre tão originais, não escreveu Brasileiros Pocotós. Suas diatribes – como ele mesmo se refere ao seus artigos semanais – são de outra cepa.