Textos Apócrifos na Internet

TOMANDO HELONEIDA STUDART COMO SE FOSSE RITA LEE

Betty Vidigal

Em geral a vítima nos casos de apocrifia é o autor a quem se atribui algo que não escreveu. No caso aqui enfocado, embora o artigo circule pela internet como sendo de Rita Lee, é preciso reconhecer que a verdadeira autora, a jornalista Heloneida Studart, é tão vítima quanto a compositora/cantora a quem o atribuem: foi usurpada de seu testemunho e de sua opinião, dados a outra pessoa.

Apesar de chocante, o que se segue é um instantâneo do cotidiano no nordeste do Brasil, há menos de um século. Um instantâneo pode apresentar um detalhe ou uma visão mais ampla. Aqui, é um momento. E assim era.

Heloneida usa o relato inicial para conduzir a conclusões sobre a situação atual das mulheres no Brasil.

 

         O Poder Desarmado

Heloneida Studart

 Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinha da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os dois irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

 Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal de sua casa, para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou "vestígios himenais dilacerados" e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor para "se esquecer do mundo". Esqueceu, morrendo tuberculosa.

 Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres.

 Antes, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos.

 Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram os seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem a moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens. E, com isso, Bar bies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres - as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima.

 Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes  universitários (56%) é composta de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.

 Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico, tão bem representado por pistolas, revólveres, punhais.

 Ninguém diz, de uma mulher, que ela é espada. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos.

 É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz.

 E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam lata d'água e trouxa de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram crianças. Ao seu dorso que engrossou, porque ela carrega o país nas costas. São mulheres que imporão um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e corações

 Viva Rita Lee, que canta: "nem toda feiticeira é corcunda,  nem toda brasileira é bunda  e meu peito não é de silicone...  sou mais macho que muito homem"

Heloneida Sudart

 

A pessoa que pela primeira vez divulgou este artigo como sendo de Rita Lee não foi alguém que, de boa-fé, acreditasse que era dela. O texto que circula pela internet foi de fato alterado. “Viva Rita Lee, que canta:” foi retirado do artigo. E o nome de Rita foi colocado logo abaixo do título, que mudou para Mais Macho que Muito Homem

Por que alguém faz isto? O que leva alguém que compreendeu perfeitamente o texto – tanto que o modificou da forma que considerou conveniente – a querer “passá-lo adiante” como se fosse de outro autor,  contando com a credulidade das pessoas a quem o enviou? O forjador toma como certo o não-questionamento que de fato se instalou.

Pois, mesmo não indicando Heloneida Studart como a verdadeira autora desta crônica, basta um mínimo de conhecimento da biografia de Rita Lee para saber que ela não cresceu em Fortaleza, mas em Americana, SP. Mesmo no nordeste, é improvável que alguém de sua geração tenha passado pelos percalços que as cearenses Bete e Maria Lúcia enfrentaram, na época da adolescência de Heloneida.

Ah! E se fosse um conto escrito na primeira pessoa? Acontece, claro. Eu mesma já escrevi personificando uma dançarina recém-chegada do Ceará, esperando o sucesso e sendo levada a um dancing de terceira. Mas, no texto acima, trata-se claramente de um depoimento. Não é ficção. Vê-se que é um relato; que aquelas meninas realmente viveram esse horror em nome da “honra”.

Quando recebi o texto, respondi à amiga que o enviou: “Rita nasceu em 47, tinha 14 anos em 1960... mocinhas desvirginadas não eram mandadas a “reformatórios” em 1960... pelo menos não em São Paulo! Isso foi escrito por outra pessoa...!!!”

Não foi difícil descobrir a autora.

Na internet, 187 referências apresentam o texto como sendo de Rita Lee. São 66 as que dão a autoria à jornalista que o escreveu. Para não entrar em considerações sobre se a maioria pode estar certa, dou apenas um endereço, o do site da própria Heloneida: http://www.heloneidastudart.jor.br/poderdesarmado.htm . O artigo foi publicado no Jornal do Brasil em 6 de fevereiro de 2001.

Quando Heloneida tinha 15 anos, Rita Lee estava nascendo. Se vivêssemos no século XIX, quinze anos não fariam a menor diferença nos usos e costumes de um povo. No século XX, no entanto, ser adolescente em 45, em 60, em 75 ou em 90 fizeram enorme diferença.

 Mas, supondo que Heloneida e Rita tivessem a mesma idade e tivessem crescido no mesmo lugar, ainda assim os estilos são tão diferentes que pasma o fato de que um ser humano que admire Rita o suficiente para “querer” que o texto seja dela e para alterá-lo de acordo com esse desejo não perceba a total incoerência entre o tom disto e o de tudo que Rita escreve e diz. Falo do tom, não do teor. Rita poderia dizer a mesma coisa, com o mesmo teor, mas o tom seria outro.

Já viram “Saia Justa”, o programa de  Mõnica Waldwogel em que assuntos diversos são debatidos com Rita Lee, Marisa Orth e Fernanda Young? Mesmo fora do território das canções, Rita é principalmente irreverente; este texto é principalmente político.

Não faria sentido este texto ser de Rita, mas é totalmente coerente dentro da atuação de Heloneida, que, além de jornalista, é deputada, no quarto mandato, líder da bancada do PT no Rio e presidente da Comissão Permanente de  Defesa dos Direitos Humanos. (É também candidata à Academia Brasileira de Letras, à cadeira de Roberto Marinho, mas isto não influi na avaliação da autoria...)

Será que Rita Lee nunca negou publicamente ter escrito este artigo? Se alguém tiver alguma informação sobre isto, peço que a envie a este site.

Nota: A canção da qual Heloneida retirou aquela quadrinha chama-se Pagu (mais paulista, impossível!) e foi feita em co-autoria com Zélia Duncan.