Mulher de
Marte
voltar
Não me olhes com esses olhos de perigo:
cuidado
comigo.
Se
mergulho nos teus olhos, não consigo
deixar
de provocar-te.É um vício antigo,
e
esse meu lado disfarçado, ambíguo,
tão
diferente do meu jeito
usual
de fazer tudo direito
é,
dos meus defeitos,
talvez
a pior parte.
Sei que dizem que as mulheres são de Vênus,
mas
sei que eu, pelo menos,
sou
de Marte.
INCÊNDIO E CHARME
voltar
Para enfrentar o mundo,
que
meu amor
de
mim se arme:
incêndio
e charme.
Para enfrentar-me,
há
que ir mais fundo:
só
charme e incêndio
não
vão bastar-lhe
(que sou imune).
Amor se mune
de
incenso e calma,
de
calma e incenso
(amor
acende-o).
Amor se arma:
ciência
e karma.
Atiça
o lume
do
olhar intenso
e
afia o gume
do
seu sorriso
(alfanje,
sabre).
É o que é preciso:
amor
me abre.
SEGREDO
voltar
Retenho este segredo entre meus dedos,
esfarelando-o
aos poucos feito giz
num
movimento disfarçado e lento
de
quem quer revelá-lo mas não diz
uma
palavra sequer.
E
morde os lábios,
para
cortar o mal pela raiz.
.
O AMOR DOS OUTROS
voltar
O
amor dos outros
é
indiferente.
Só
o da gente
é
especial,
fosforescente,
brilha
no escuro.
O
amor dos outros
é
tão pequeno,
nem
vale a pena
pichar
o muro.
Ninguém entende
o
amor alheio;
não
é bonito
e
não é feio.
O
amor dos outros
é
tão efêmero!
Estão
amando?
Fazendo
gênero?
O amor dos outros
é
muito pouco:
só
o da gente,
direito
ou torto,
alegre
ou triste,
sereno
ou louco,
lascivo
ou puro,
céu
ou inferno
-
só o da gente
será
eterno.
Olha pro rosto
do
amor alheio:
são
só dois olhos,
nariz
no meio,
cadê
a boca?
Olha
pra cara
do
amor da gente:
que
coisa louca!
CIÚME
voltar
Esta
noite, me cobri com seu perfume:
era
um jeito de ser sua.
Deitei
no centro da cama, seminua,
sozinha
vestindo
a tanga de renda cor de água-marinha
que
comprei para te provocar.
(A
diferença entre amor e paixão
é
que amor não
faz
a gente sair por aí,
comprando
lingerie
–
isto não é invenção minha,
é
citação;
já
nem lembro onde li.)
Mulheres
sábias usam só uma gotinha
de
essência, atrás da orelha.
Eu,
que não sou sábia, não consigo:
uso
uma gota entre os seios
e
outra gota no umbigo.
E
se pretendo partir para o ataque,
prefiro
pôr atrás da orelha
uma
gota de conhaque
Pedro
Domecq.
Mas
nessa noite, não: usei Bulgari Black,
um
vidro inteiro,
num
ato de exagero,
para
acabar com isto de uma vez,
nunca
mais sentir seu cheiro.
Metódica
e tranqüila como uma suicida,
massageei
primeiro
os
pés, pernas, joelhos,
longamente.
A mulher do espelho
me
olhava com censura.
Julguei
detectar uns laivos de loucura
nos
seus olhos vermelhos.
Mas
eu, que sou sensata, madura, equilibrada,
quando
percebo seus lábios cheios de perguntas
do
outro lado da lâmina de vidro,
viro
de costas para ela,
não
lhe explico nada.
Passo o perfume nas juntas:
dedos,
pulsos, cotovelos;
derramo
meio frasco nos cabelos
e
por fim, acabo com essa história:
despejo
sobre os ombros, a garganta,
todo
o restante,
como
quem dispara um tiro de pistola.
Dormi assim, alucinada de perfume.
Impressionante
o que faz o ciúme.
PERDAS
voltar
As mãos que ergueram castelos
de
nuvens, cartas e areia
para
eu passear meus sonhos
e
brincar de ser sereia
hoje
perdidas, perdidas,
com
gestos irrefletidos,
marcadas
de cicatrizes.
A
voz que ensinou tão reta,
tão
cheia de devoção:
"Só
tens uma pátria - a Terra -
e
os homens são teus irmãos",
hoje
perdida, perdida.
Vibrava sonora e firme,
não
como agora, vencida.
Perdido, tudo perdido.
Ninguém
é muito culpado,
ninguém
tem muita razão.
O
mundo é que está errado.
Pilatos lavou as mãos.
MIMETISMO
voltar
Então fiquei assim: dourada e tua.
Estendida sobre a areia,
meio
nua,
meio
sereia, um pouco
estrela-
do-mar.
Interior de concha, a madreperolar-
-me
para te atiçar.
(De pura fita, por puro charme,
um
pouco inércia, preguiça um pouco:
jogo
de búzios e de mimetizar.)
Esses teus olhos, meu louco,
andaram
roubando as luzes
que
flutuavam no ar
para
espalhar por meu corpo.
Então fiquei assim: tua e dourada.
Sereia meio submersa,
fragata
naufragada.
VESTIDO
I
voltar
O que escondo no bolso do vestido
não
é para ser visto por qualquer
um
que ambicione compreender
ou
que às vezes cobice esta mulher.
O que guardo no bolso do vestido
e
que escondo assim, ciumentamente,
é
como um terço de vidro
de
contas incandescentes
que
alguém toca com as pontas dos dedos
nos
momentos de perigo
para
afastar o medo;
é como um rosário antigo
que
um crente aperta na palma da mão
para
resistir à tentação
quando
um terremoto lhe ameaça a fé:
Jesus, Maria, José,
que
meu micro-vestido esvoaçante
não
vos ofenda em vão os olhos castos;
que
minhas sandálias de prata
não
me falhem nos instantes de cansaço;
que
a tiara de princesa que não uso
não
se perca entre os dedos dos incautos,
os
sonhos dos reclusos;
que
eu nunca quebre um salto;
que
não me falta jamais um parafuso
(não
que se note);
que
com sorte, cautela e canja
eu
me transforme um dia numa anja
e
lá do alto
repique
os sinos para congregar os loucos, os aflitos,
os
que vos chamam aos gritos,
os
que nunca têm respostas.
Mas que mantenha nos bolsos
um
breve contra os olhados
bons
e maus;
que
continuem assim os meus vestidos:
precipitados
nas costas,
bem
curtos, desaforados,
mal-comportados,
bonitos.
O que inda escondo nos bolsos
e
murmuro nos instantes adversos
é
um verso medieval
escrito
às pressas, no escuro,
por
um bardo meio analfabeto
em
caracteres rabiscados, inseguros
para
ser lido às avessas;
é
uma bola de cristal
que
não deixa prever o futuro;
é
uma invocação,um cântico,
um
patuá romântico
cheio
de pétalas azuis,
- para me proteger das bruxas que não fui;
dos
passes
que
jamais permiti que me encantassem;
da
maldição
que
não veio dos meus sins, mas sim de um não
- de um único não,
uma
bobagem,
que
não daria jamais
um
furo de reportagem.
MAS...
voltar
Mas este amor com que te amei, de fera
que
lambe a mão do dono, dominada,
não
te bastou, eu sei, porque não era
depois
daquela busca alucinada
o
amor que imaginaras. Tua espera
de
tantos anos, amor meu, com nada
sossegaria.
Nada
estaria à altura do suspense
que
aos poucos construíste, a expectativa
que
te deixou a alma em carne-viva
e
essa sensibilidade exacerbada
que
te consome, honey. Nada, nada.
Sei que me imaginavas diferente
e
não sei bem quais sonhos eu devia
tornar
reais. Sem referenciais,
perdida
nesse mundo de nonsense,
fiquei
assim: a fera doce, mansa,
que
quando te exaspera
transforma-se
em criança
e
te toca de leve, ronronante
como
ronronam onças. Mas não pense
que
teus rugidos me assustam. Não me encolho:
prefiro
te encarar, olho no olho.
Olha então, bem sério, para mim:
alguma
vez já viste uma mulher
com
um olhar apaixonado assim?
PERSONAGEM
voltar
Eu não sabia se abria mais a blusa
ou
se fechava até o último botão,
estava
meio confusa,
eu
só queria a sua aprovação.
Eu não sabia se me sentava comportadamente,
joelhos
bem juntinhos,
mãos
cruzadas no colo,
como
ensinavam as freiras no colégio,
e
aceitava uma xícara de chá,
ou se cometia o sacrilégio
de
arriscar um vôo solo,
me
atirava, felina, no sofá,
pés
descalços sobre o braço do estofado
e
olhava para o lado,
para
o bar,
com
um olhar cheio de interrogações irônicas.
Eu não sabia se encarnava a personagem
das
HQ que estão na sua estante,
a
heroína urbana nervosa e agitada
que
nunca dorme e está sempre a mil por hora,
ou
se vestia a imagem
da
mulher rasa, chã,
perfeitamente
plana,
que
se deita às dez da noite,
levanta
às seis da manhã
e sai de casa sem nem ler o jornal,
porque
afinal
é
tudo sempre igual,
como
nas tiras cômicas.
Eu estava mesmo bem desnorteada,
nem
um pouco preocupada em ser autêntica,
queria
tudo e não queria nada,
queria
ser a sua musa excêntrica,
a
moça do calendário,
e
a faxineira invisível
que
pega no armário
debaixo
da escada
uma
flanela e a cera
para
deixar a sua casa um brinco.
Eu queria ser uma mulher bem sólida,
una,
indivisível, coerente,
e
queria também ser cinco
ou
talvez dez,
assumir
todos os papéis,
ser
a sua irmãzinha confidente,
a
professora autoritária,
a
mãe doce, carinhosa e necessária,
a
amante que conhece você profundamente
e
que você leva ao delírio quando quer,
a
esposa submissa,
e
também a vizinha assexuada
que
te diz para ir à Missa.
E enquanto esperava, parada
no
portal do hall de entrada,
tentando
tomar uma decisão,
olhando
a sua sala iluminada
como
quem do limbo enxerga o paraíso
(você
de costas fumava um cachimbo)
achei
que era melhor criar juízo
e
nem entrar.
Eu só queria a sua aprovação;
te
impressionar.
VESTIDO
II
voltar
Pois é - o que supunhas?
Às vezes fico assim, bem-comportada,
saia
plissada, um pouco abaixo dos joelhos,
e
nas unhas,
em
vez dos tons vermelhos,
uso
estas cores claras, nacaradas.
Às vezes fico assim: bem maquiada,
mas
tão discretamente...
Limito
o rosto com brincos de madame
–
e brinco que inda assim há quem me ame,
mesmo
contida, formal, séria, reservada.
E quando estou assim nem se pressente
sob
o verniz dos gestos controlados
meus
precipícios, o espanto adolescente
com
cada pôr-de-lua em madrugada,
cada
renovação do sol nascente,
com
tudo, quase tudo. E com pequenos nadas,
com
ínfimos detalhes comoventes.
Então: o que pensavas, afinal?
Às
vezes passo assim dias inteiros:
tailleurs
de tafetá,blusas de linho
- e a alma e o coração, meu companheiro,
descabelados,
em
permanente e completo desalinho.
.
O FIO DA MEADA
voltar
Retomo o fio da meada
no
ponto em que se partiu.
Foram
doidices de fada,
pedras
no fundo de um rio.
Retomo este pensamento
no
ponto em que o abandonei.
Pedras
no fundo do rio?
Foram
loucuras do rei.
Reato o nó dos cabelos
no
ponto em que se desata.
Eram
pedras ou rubis?
Tonteiras
de magnata.
Rubis, pérolas, safiras...
-
e eram meros grãos de areia!
Quem
se enganou a tal ponto?
Exageros
de sereia.
Uns seixos tão pequeninos
nem
riscam esta água inquieta.
Quem
se empenha em recolhê-los?
Desatinos
de poeta.
PORÉM
voltar
Um
homem
deve
às vezes restar quieto sobre a cama,
com
os olhos entreabertos
e
um sorriso quase irônico nos lábios
e
permitir que alguém, em gestos rápidos,
lhe
desfranza o sobrecenho contraído,
alise
a linhas do semblante carregado
e
depois trace desenhos, levemente,
com
as unhas e os dentes,
em
sua pele fina e delicada.
Homens
detestam que alguém lhes diga
que
têm a pele fina e delicada.
Porém,
se andam sempre tão vestidos,
de
terno ou jeans,
camisa
abotoada,
no
máximo com a manga arregaçada,
tão
protegidos do sol, dos poluentes,
como
querem que seja diferente?
Uma
mulher caminha exposta,
ombros
à mostra,
vestidos
curtos, acima dos joelhos,
e
a pele torna-se, naturalmente,
-
não mais grossa - porém mais resistente
e,
pelo efeito da erosão dos ventos,
talvez
mais lisa até.
E
bronzeada,
acostumada
aos raios ultra-violeta
e
à poluição.
Já
homem, não.
Então
a pele é clara, é claro,
e
lisa, por que não?
Homem,
sabe-se lá por que,
adora
ser durão.
TERRA
voltar
Escuta,
amigo:
a
noite não te dá maior verdade
do
que aquela que encontras em ti mesmo
nem
tua lágrima redime os outros homens.
Enquanto
a Terra te conservar preso,
não
serás mais que sal e pó, e pó e sal
que
o vento leva e o mar dissolve em ondas.
Coisa
nenhuma importa mais que o tempo,
e
o tempo é morto sem que o percebamos.
A
luz é rápida e incompreensível;
o
mais é vida – o irremediável.
As
coisas são os rios,sempre móveis,
dessa
inquietude amorfa e absorta.
Nós
somos nós somente, até a morte:
o
absoluto que jamais se aceita
como
é –única e perpétua liberdade
imortal
e perfeita.
DEVOLUÇÃO
voltar
Eis
o teu homem de antigamente:
aqui
o tens restituído.
Toma
cuidado
que
ele é de vidro.
Toma
cuidado:
Foi
construído
nessa
matéria que é fogo e areia.
Numa
queda,
fragmentar-se-á
de
forma incrível.
Eis
o teu homem,
pouco
mudado:
nem
mais altivo, nem mais cansado.
Mas
sob a pele translúcida,
mas
através do seu corpo,
navegando
em suas veias,
refletidas
no seu rosto,
nos
olhos dilacerados,
nunca
lerás que lembranças
galopam,
desatinadas?
ENCONTRO
voltar
Com
olhos secos,
te
vejo e me recuso
a
acreditar.
Com voz segura,
explico
que não posso
demorar.
Com dedos frios,
despeço-me
e despeço-te
num
gesto.
Com passos firmes,
afasto-me
depressa.
O coração
quer
dormir e não encontra
posição.
HORIZONTE
voltar
O
horizonte é o mesmo.
Mas
há esta nova claridade que me sufoca o olhar.
Caminho a
esmo.
Hoje
não quero pensar.
É
que mudou a lua,
e
tudo se transforma.
Cobre-se
a Terra de uma terra nova
e
as marés se tornam violentas.
Somente
eu vou lenta, lenta.
Concentrada
em não chorar.
Não
que tenha perdido a alegria
por
completo:
o
caminho não havia de sempre reto
e
eu já sabia disso muito antes
de
decidir te acompanhar.
Mas
agora, a noite me tomou.
E
eu me tornei, subitamente,
o que
não sou:
sem
norte, sem destino.
O
que se extraviou,
de
mim, por esta estrada?
Eu
vinha te seguindo e não te vejo mais.
E
estava tão habituada.
O
horizonte é o mesmo.
Só
lhe falta
a
longa silhueta que eu seguia
e
contemplava.
É
que mudou a lua, e tudo se transforma.
Somente
a linha do horizonte permanece inalterada.
LENDA
voltar
Houve
tempo em que te não conhecia,
e
em que escutava, entre descrente e fascinada,
as
estórias – lendas – que de ti se ouviam.
Houve
um tempo em que teus gestos me assombravam:
ao
ritmo da música moviam-se tuas mãos,
e
a cada instante eu aguardava os pássaros
que
certamente brotariam dos teus dedos.
O
sorriso com que então te contemplava
era
o mesmo sorriso expectante e fixo
que
em criança tive apenas para os mágicos.
Falavam-me
de ti como quem fala
de
um deus.
Como
quem ouve falar de um deus,
eu
os ouvia:
imóvel,
tensa, esquecida
de
tudo.
Suspensa
a cada palavra,
perdida
em cada minúcia
e
comovida.
E
mais comovida e tensa
na
tua presença.
O
tempo que passou sobre nossas cabeças,
transformando
o mundo,
foi
demais.
Mas
ainda te conheço e tu me conheces,
porque
somos iguais.
Iguais
como párias irmãos.
Irmãos?
Amantes
desatinados.
Como
inimigos mortais,
como
cavalos selvagens,
mas
certamente,
por
hoje,
como
dois loucos adolescentes
perdidamente
enamorados.
FIM DE FESTA
voltar
Havia
vento.
Era
o momento em que talvez o sol nascesse,
mas
em vão aguardamos que viesse.
Havia
vento e, à minha volta, tanta gente,
que
minha solidão era um mistério.
(Que
eu me sentia uma figura solitária,
uma
figura pequena e esquecida
na
imensidão macia do gramado.)
Havia
vento,
fazia
frio,
e
eu estava - sabe? - tão cansada!
Era
um fim de madrugada.
A
grama estava úmida e gelada.
As
pessoas pareciam tão distantes!
E,
súbito, cobriu-se o universo
de
um silêncio tão grande,
de
um tão intenso silêncio sossegado!
Eu
não sentira nunca, meu amor, tanta saudade.
DEDOS DE VIOLINISTA
voltar
Dedos de violinista não existem.
É
pura lenda,
o
que se diz que faz seu toque num corpo de mulher.
Dedos
de violinista classificam-se,
como
os duendes e as fadas,
nessa
categoria de personagens misteriosos,
seres
de fantasia
que
há quem jure ter visto em noites encantadas.
Mas a poeta, a cética que nunca viu nada,
não
crê que existam.
(Uma vez pensei ter visto, sim:
em
uma noite assim, enluarada, clara,
acordei
sobressaltada:
alguém
me chamava, do jardim.
Abri uma fresta na janela:
junto
ao muro coberto de hera,
num
canteiro de musgo
–
onde o luar desenha rendas sob as primaveras –
parecia
escorrer, sob uma pedra,
uma
luz azulada.
Desci as escadas, intrigada,
vestindo
às pressas uma túnica sobre a pele nua.
Lá
fora,
a
noite era acariciante
como
deveria ser o toque de um amante.
A
noite me envolvia, confortável.
Levantei a pedra com cuidado:
uma
diminuta criatura alada,
translúcida
e sutil,
molhava
os pés numa gota de orvalho.
Olhou
para cima. Riu.
Foi
para mim?
Depois,
com dia claro, eu não sabia
se
tinha mesmo visto isto
ou
se sonhara.)
Dedos de violinista são assim:
se
alguém disser que os viu, que percorreram
num
arrepio a pele eletrizada,
duvidem,
ah, duvidem!
É
mentira
ou
é delírio:
percorreram
nada.
GOLE
voltar
Toma
um gole de mim que te sustente
por
mais uma semana, um mês talvez.
Um hausto de palavras transparentes,
tela
translúcida através da qual me vês
como
uma silhueta, simplesmente.
Uma mulher que pensas conhecer?
Me deixa bêbada de ti. Por um momento,
quando
te afastas,sei que vou morrer
de
uma ressaca dessas violentas,
que
fazem viciados renitentes
jurarem
a si mesmos nunca mais beber.
Mas sei e sabes que estou sempre aqui,
e
que sou e serei reincidente.
REUNIÃO
DE TRABALHO
voltar
Guardo umas irrelevâncias
para
soltar como pérolas
sobre
a mesa de trabalhos
nas
ocasiões mas sérias.
Provoco escândalo e escárnio.
No auge das discussões,
murmuro,
com meus botões,
trechos
de Dante e Petrarca.
Por
falta de referências,
quem
percebe as citações?
E quem, em sã consciência,
pleno
uso da razão,
com
os quatro pés no chão,
convocaria
a poeta
para
esta reunião?
MONTANHA
voltar
Uma
luz forte como a luz do dia,
mas
não de um dia qualquer:
um
dia de montanha, e uma montanha
a
cujos pés ascetas se ajoelham
ao
atingir o entendimento pleno;
onde
cada molécula inorgânica
reflete
a luz do sol e cada átomo
de
metal incrustado nas encostas
transforma-se
em espelho e rocha ígnea
que
queima e corta os pés dos alpinistas.
Uma
luz tão forte, então, eu te dizia,
que
me fez cobrir os olhos com as mãos,
e
mesmo através das mãos feriu-me a vista
de
uma cegueira longa e irreversível
ao
atingir o fundo da retina;
e
me crestou a pele com seu brilho
estes
tremores, espasmos e arrepios;
e
a sensação final era de frio,
o
frio que é fatal,
total
e absoluto,
o
zero grau
na
escala Farenheit.
E
foi inútil que no alto da montanha
os
eremitas deixassem suas grutas
e
aos gritos me avisassem do perigo,
pois
já a luz invadia-me os ouvidos
apagando-me
os registros da memória
e
reduzindo toda a informação
a
zero bytes,
num
disquete sem rótulo e sem formatação.
Uma
luz tão forte, então, eu te dizia,
que
eu soube enfim como é que te sentias.
COSMOGONIA
voltar
Ah, esse corpo que tanto desejo;
esse
teu corpo que desejo tanto!
Vou
te cobrir de estrelas,
cada
estrela um beijo,
e
te deixar assim, todo estrelado,
aberto
em minha cama;
teu
corpo um mapa
da
cosmogonia do desejo,
espaço
siderante onde viajo
e
siderada me perco,
nave
extraviada,
em
órbitas concêntricas
fora
do alcance de qualquer resgate.
RAIO
LASER
voltar
Existe um brilho que só eu posso te dar
e
que vem dessa atenção individida
que
concentro no olhar
quando
quero e me sinto querida.
E depois que você se acostumar
a
um raio laser pincelando sua vida,
pode
estranhar
e
sentir falta dessa dança colorida
iluminando
o ar,
se
o feixe de luz se desviar.
(A brincadeira era muito divertida.)
Te fazem falta,
as
luzes da ribalta?
Não que se note,
mas
o foco do holofote,
marcando
um círculo de luz sobre o tablado,
acompanhando
o seu sapateado
-
esse show particular
que
você gosta tanto de encenar -
ao
apagar-se deixou tudo sem graça?
Não
se preocupe: isso passa.
CHARME
voltar
Dentro do raio de ação
desse
charme,
pergunto-me
por que não
imunizar-me.
“É o princípio da vacina,minha filha”,
“Expões-te ao vírus,ao veneno,
e
em pouco tempo – maravilha! –
ficas
protegida”
“Mas que ingenuidade comovente!” ,
explode,
às gargalhadas, meu inconsciente.
“Não
percebes então, louca, cega, ignara,
que
não serás a mesma
ao
sair desta sala?”
Ao que retruca o superego,
contrafeito:
“E
eu que pensava tê-la educado
tão
direito!
Parecia
já tão bem treinada!
Mas
vê-se agora: não aprendeu nada!”
“Tolices”, respondo, ríspida e confusa.
“Tolices
dessa cabeça de medusa,
alma
de mil serpentes,
que
te habita, inconseqüente!”
E o superego, condescendente:
“Crês,
na verdade;
crês,
realmente,
que
tua simples vontade
de
fêmea
possa
resistir ao charme incandescente
dessa
tua alma gêmea?
Pois
é isso que sois,
os
dois....”
Mantenho-me então,
por
precaução
(sou
mesmo assim, prudente),
bem
próxima ao limite do círculo de ação
desse
charme indecente.
Não
é que acredite,
realmente,
que
tanto alarme tenha procedência.
Mas,
numa emergência,
não
me rendo:
afasto-me
correndo.
Só que – ai! –
me
atrai....
TRAVESSURA
voltar
Brilhantes
nas orelhas,
os
ombros descobertos,
nas
longas unhas,
vermelho
cardeal.
E
digo disparates,
e
tudo me diverte.
No
cocktail-party,
wearing
the latest fashion,
sou
sempre mais segura. Afinal,
sei,
quando me convém,
melhor
do que ninguém,
ser
fútil, leviana
e
superficial.
Mas não me julgue mal:
com
olhos carregados de censura
você
estraga a minha travessura.
CRISTAL
voltar
Deixa meu sorriso entrar feito um punhal
nesse
teu coração, pedra de sal
onde
nada frutifica nem floresce.
Deixa assim: um sorriso permanece
depois
que todo o resto, por igual
se
aplaina sob os ventos da memória.
O
vendaval
que
passou por sobre a tua, a nossa história
transformando
em planície, em areal
deserto
e árido aquilo que afinal
tinha
um relevo
definido,
sensual,
contorno
original,
topografia
própria.
Sei que não devo,
que
não deveria,
mas
cravo inda mais fundo este punhal
e
giro a lâmina à medida que a retiro:
não
por mal
e
nem por covardia.
É
um movimento natural
do
pulso, essa torção.
Aguardo em sobressalto alguma reação:
em
vão.
Nenhum
sinal vital se manifesta.
Já
não há nada (ou nunca houve) nesse coração.
Mas não:
no
fio do punhal,
um
minúsculo cristal ainda resta.
Toco-o
com a ponta da língua, com cuidado,
por
curiosidade:
sem
saudade,
sem
ódio.
(É verdade:
é
mesmo puro sal
de
sódio.)
QUE
SEJA
voltar
Está
bem: que termine, que termine!
Se
tem que ser assim... Enfim: que seja!
Que
não mais o meu verso te ilumine
e
nem tua magia me proteja
das
coisas que não temo e em que não creio.
E
os beijos de hortelã e de cereja
que
trocaríamos noutra realidade,
que
fiquem para sempre relegados
ao
território das impossibilidades.
Não
sou de ter saudades do passado,
mas
do futuro, sim, terei saudade.
SUMIÇO
voltar
Vou
desaparecer da tua vida,
e
ela vai ficar tão aborrecida!
Vou
deixar a tua vida lisa e plana,
sem
graça como um início de semana,
uma
semana dessas bem compridas,
sem
expectativa de alegrias.
Uma
sucessão de dias desbotados,
tardes
frias,
noites
descoloridas, madrugadas
pálidas
e mal dormidas.
Vou
sumir até mesmo dos teus sonhos,
não
vou aparecer nem em delírios;
tenho
planos detalhados e perfeitos
e
quando os descobrires
será
tarde demais,
não
vai ter jeito:
tudo
vai parecer tão desenxabido,
tão
tristonho,
tão desprovido
de finalidade...
E
quando não houver nada que te agrade,
te
interesse,
todos
dirão que é depressão, estresse,
mas
nós dois saberemos que é saudade.
OLHAR
voltar
Vou
começar do começo:
em
primeiro lugar,
um
olhar, você sabe, não tem preço;
não
é algo que se possa avaliar,
pagar
com cartão credicard,
visa
internacional, amex,
com
um ou vários cheques,
cheque
especial
e
coisa e tal.
Não
insista:
um
olhar não se compra
nem
à vista.
O
meu é meu e eu carrego
para
onde vou:
cedo,
empresto, dou,
entrego
quando
quero.
Deixando
de lero-lero:
o
meu olhar, como o Amor, é cego,
não
escolhe com discernimento a quem se dar.
Um
olhar é uma jóia em si:
não
se troca por diamante nem rubi.
Como
o Amor e a Justiça,
que
vive sempre vendada e não vê nada,
mas
leva espada e balança,
o
meu olhar não se cansa
desses
duelos de capa-e-espada
tipo
folhetim
–
cada romance chinfrim!
“Entre
les deux mon cœur balance” –
mas
cada vez que o espadachim
descendo
a escada de lance em lance
derruba
um adversário,
percebo
que a lança
é
um mal necessário.
E
voltando ao assunto,
olha:
o meu olhar não vou vender,
eu
sinto muito,
doa
a quem doer.
RISCO
voltar
Sempre
correndo riscos.
Nunca
choro.
Isto?
Não são lágrimas, não.
Foi
só um cisco
no
meu olho, juro. (Eu adoro
você,
cara.) Mais uma vez me arrisco:
encaro
o salto no escuro.
Aterrisso
nos
seus olhos? Não:
Lá,
no olho do vulcão,
no
fulcro do furacão,
no
centro da tempestade.
Um
lado de mim tem os pés sempre no chão,
sonhos
sensatos, maduros.
Um
lado é a realidade.
O
outro lado desvaria quando salta:
entra
em órbita em torno de Saturno
e
nunca volta à Terra. Nunca mais.
Provoco
maremotos, à distância:
diluo
o seu olhar nos Oceanos.
Em
conluio com a Lua,
desencadeamos
você e eu essas marés azuis que têm invadido os continentes,
provocando
pânico.
Quero
sim ser sua,
e
o resto do Universo que se dane.
(O
Sistema Solar entra em pane)
DIÁLOGO
DE OTHELLO E CORO
voltar
OTHELLO:
-
Desejo que todos saibam:
aquela
mulher macia
me
pertencia.
Amava-me
e nos momentos
mais
tranqüilos dividia
comigo
seus pensamentos
sinuosos
de enguia.
Eram
meus os cachos doidos,
indomáveis,
e
as carícias sempre prontas
na
pontas dos dedos frágeis.
Com
que miragens
me
enternecia!
CORO:
-
Quem?
Que
mulher é essa,
que
te pertencia?
Que
mulher foi essa,
que
te pertenceu?
E
quando?
Nas
tarde de insônia?
Nas
noites de frio?
E
onde?
No
mar, no chuveiro?
No
escuro?
E
como?
No
mais puro
e
simples e perfeito e verdadeiro
abandono?
O
que?! Então ninguém te disse, companheiro,
que
essa mulher não teve dono, mas prisioneiro?
EXPLORADORA
voltar
Me
crava no teu chão feito bandeira
informando
a piratas e que tais
que
já uma fragata brasileira
atracou
no teu solo: nunca mais
te
vais livrar da alma aventureira
a explorar-te
as praias ancestrais
palmo
a palmo,
légua
a légua,
milha
a milha,
inundando
de sol a quase ilha
com
risos e requebros tropicais.
PLANOS
PARA O MILÊNIO
voltar
Não
estarei em tua casa, quando voltares cansado do trabalho.
Não
estarei deitada em teu sofá, lendo os jornais do dia, à tua espera.
Não
estarei sentada na calçada, a cabeça apoiada nos joelhos,
esperando
teu carro aparecer.
Não
estarei também ali na esquina,
segurando
uma faixa em que proclamo
minha
determinação em prosseguir te amando
haja
o que houver.
No
próximo milênio,
não
estarei em permanente sobressalto,
procurando
teu nome na lista de escolhidos
para
embarcar na nave para Júpiter.
Neste
próximo milênio, isto eu garanto,
vou
estar muito tranqüila.
Serei
apenas uma poeta estarrecida
com
a própria capacidade de esquecer-se
da
tua pele,
dos
teus olhos,
do
som da tua voz,
de
cada detalhe das tuas mãos quase transparentes
apoiadas
sobre o mapa circular da minha vida,
determinando
meu futuro e meu presente.
SÓRDIDA
voltar
Tachei
de sórdida a literatura,
mas
foi só por revolta contra mim.
Que
direito tenho eu de andar assim,
colhendo
arame farpado nas estradas,
enrolando-o
em rolos comportados
que
fazem sangrar tanto as minhas mãos?
Enquanto ri-se o gado, liberado,
e
invade os canteiros descuidados
das
autobans.
Caminhante prossigo, obcecada,
obsessiva
na missão que me propus:
retirar
qualquer barreira à doce liberdade
do
gado humano,
fazer jus
à
tarja anárquica com que fui rotulada.
Sei e sabemos das trocas necessárias,
dos
escambos matreiros por trás das fachadas
respeitáveis.
Que
direito tenho eu de andar assim,
subvertendo
o mal como se mal não fosse?
Interpretando
o mal como um caminho
para
a doçura inevitável?
O
mal.
|