Betty Vidigal      arte literária brasileira contemporânea       betty@bettyvidigal.com.br         

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       Betty Vidigal é autora dos livros:

Eu e a vela
, Tempo de Mensagem e Os Súbitos Cristais, de poesia, e
Posto de Observação - Contos para a Happy-Hour
, de contos
(publicados também em Portugal).

Colabora com a revista Voz Lusíada e o jornal O Escritor.

É membro da diretoria da UBE - União Brasileira de Escritores.

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Mulher de Marte           voltar

Não me olhes com esses olhos de perigo:
cuidado comigo.
Se mergulho nos teus olhos, não consigo
deixar de provocar-te.É um vício antigo,
e esse meu lado disfarçado, ambíguo,
tão diferente do meu jeito
usual de fazer tudo direito
é, dos meus defeitos,
talvez a pior parte.

Sei que dizem que as mulheres são de Vênus,
mas sei que eu, pelo menos,
sou de Marte.


INCÊNDIO E CHARME           voltar
 
Para enfrentar o mundo,
que meu amor
de mim se arme:
incêndio e charme.

Para enfrentar-me,
há que ir mais fundo:
só charme e incêndio
não vão bastar-lhe

(que sou imune).

Amor se mune
de incenso e calma,
de calma e incenso
(amor acende-o).

Amor se arma:
ciência e karma.
Atiça o lume
do olhar intenso
e afia o gume
do seu sorriso
(alfanje, sabre).

É o que é preciso:
amor me abre.
 

SEGREDO           voltar
 
Retenho este segredo entre meus dedos,
esfarelando-o aos poucos feito giz
num movimento disfarçado e lento
de quem quer revelá-lo mas não diz
uma palavra sequer.
E morde os lábios,
para cortar o mal pela raiz.
.
O AMOR DOS OUTROS              voltar

O amor dos outros
é indiferente.
Só o da gente
é especial,
fosforescente,
brilha no escuro.

O amor dos outros é tão pequeno,
nem vale a pena
pichar o muro.

Ninguém entende
o amor alheio;
não é bonito
e não é feio.
O amor dos outros
é tão efêmero!
Estão amando?
Fazendo gênero?

O amor dos outros
é muito pouco:
só o da gente,
direito ou torto,
alegre ou triste,
sereno ou louco,
lascivo ou puro,
céu ou inferno
- só o da gente
será eterno.

Olha pro rosto
do amor alheio:
são só dois olhos,
nariz no meio,
cadê a boca?
Olha pra cara
do amor da gente:
que coisa louca!


CIÚME           voltar
 
Esta noite, me cobri com seu perfume:
era um jeito de ser sua.

Deitei no centro da cama, seminua,
sozinha
vestindo a tanga de renda cor de água-marinha
que comprei para te provocar.

(A diferença entre amor e paixão
é que amor não
faz a gente sair por aí,
comprando lingerie
– isto não é invenção minha,
é citação;
já nem lembro onde li.)

Mulheres sábias usam só uma gotinha
de essência, atrás da orelha.
Eu, que não sou sábia, não consigo:
uso uma gota entre os seios
e outra gota no umbigo.
E se pretendo partir para o ataque,
prefiro pôr atrás da orelha
uma gota de conhaque
Pedro Domecq.

Mas nessa noite, não: usei Bulgari Black,
um vidro inteiro,
num ato de exagero,
para acabar com isto de uma vez,
nunca mais sentir seu cheiro.

Metódica e tranqüila como uma suicida,
massageei primeiro
os pés, pernas, joelhos,
longamente.

A mulher do espelho
me olhava com censura.
Julguei detectar uns laivos de loucura
nos seus olhos vermelhos.
Mas eu, que sou sensata, madura, equilibrada,
quando percebo seus lábios cheios de perguntas
do outro lado da lâmina de vidro,
viro de costas para ela,
não lhe explico nada.

Passo o perfume nas juntas:
dedos, pulsos, cotovelos;
derramo meio frasco nos cabelos
e por fim, acabo com essa história:
despejo sobre os ombros, a garganta,
todo o restante,
como quem dispara um tiro de pistola.

Dormi assim, alucinada de perfume.

Impressionante

o que faz o ciúme.
 

PERDAS           voltar
 
As mãos que ergueram castelos
de nuvens, cartas e areia
para eu passear meus sonhos
e brincar de ser sereia
hoje perdidas, perdidas,
com gestos irrefletidos,
marcadas de cicatrizes.
 
A voz que ensinou tão reta,
tão cheia de devoção:
"Só tens uma pátria - a Terra -
e os homens são teus irmãos",
hoje perdida, perdida.
 
Vibrava sonora e firme,
não como agora, vencida.

Perdido, tudo perdido.
Ninguém é muito culpado,
ninguém tem muita razão.
O mundo é que está errado.

Pilatos lavou as mãos.  
 

MIMETISMO              voltar

Então fiquei assim: dourada e tua.
 
Estendida sobre a areia,
meio nua,
meio sereia, um pouco
estrela-
do-mar.
 
Interior de concha, a madreperolar-
-me para te atiçar.

(De pura fita, por puro charme,
um pouco inércia, preguiça um pouco:
jogo de búzios e de mimetizar.)

Esses teus olhos, meu louco,
andaram roubando as luzes
que flutuavam no ar
para espalhar por meu corpo.

Então fiquei assim: tua e dourada.

Sereia meio submersa,
fragata
naufragada.


VESTIDO I           voltar
 
O que escondo no bolso do vestido
não é para ser visto por qualquer
um que ambicione compreender
ou que às vezes cobice esta mulher.

O que guardo no bolso do vestido
e que escondo assim, ciumentamente,
é como um terço de vidro
de contas incandescentes
que alguém toca com as pontas dos dedos
nos momentos de perigo
para afastar o medo;

é como um rosário antigo
que um crente aperta na palma da mão
para resistir à tentação
quando um terremoto lhe ameaça a fé:

Jesus, Maria, José,
que meu micro-vestido esvoaçante
não vos ofenda em vão os olhos castos;
que minhas sandálias de prata
não me falhem nos instantes de cansaço;
que a tiara de princesa que não uso
não se perca entre os dedos dos incautos,
os sonhos dos reclusos;
que eu nunca quebre um salto;
que não me falta jamais um parafuso
(não que se note);
que com sorte, cautela e canja
eu me transforme um dia numa anja
e lá do alto
repique os sinos para congregar os loucos, os aflitos,
os que vos chamam aos gritos,
os que nunca têm respostas.

Mas que mantenha nos bolsos
um breve contra os olhados
bons e maus;
que continuem assim os meus vestidos:
precipitados nas costas,
bem curtos, desaforados,
mal-comportados, bonitos.

O que inda escondo nos bolsos
e murmuro nos instantes adversos
é um verso medieval
escrito às pressas, no escuro,
por um bardo meio analfabeto
em caracteres rabiscados, inseguros
para ser lido às avessas;
é uma bola de cristal
que não deixa prever o futuro;
é uma invocação,um cântico,
um patuá romântico
cheio de pétalas azuis,

- para me proteger das bruxas que não fui;
dos passes
que jamais permiti que me encantassem;
da maldição
que não veio dos meus sins, mas sim de um não
 
- de um único não,
uma bobagem,
que não daria jamais
um furo de reportagem.
 

MAS...           voltar
 
Mas este amor com que te amei, de fera
que lambe a mão do dono, dominada,
não te bastou, eu sei, porque não era
depois daquela busca alucinada
o amor que imaginaras. Tua espera
de tantos anos, amor meu, com nada
sossegaria.
Nada estaria à altura do suspense
que aos poucos construíste, a expectativa
que te deixou a alma em carne-viva
e essa sensibilidade exacerbada
que te consome, honey. Nada, nada.

Sei que me imaginavas diferente
e não sei bem quais sonhos eu devia
tornar reais. Sem referenciais,
perdida nesse mundo de nonsense,
fiquei assim: a fera doce, mansa,
que quando te exaspera
transforma-se em criança
e te toca de leve, ronronante
como ronronam onças. Mas não pense
que teus rugidos me assustam. Não me encolho:
prefiro te encarar, olho no olho.

Olha então, bem sério, para mim:
alguma vez já viste uma mulher
com um olhar apaixonado assim?
 

PERSONAGEM           voltar
 
Eu não sabia se abria mais a blusa
ou se fechava até o último botão,
estava meio confusa,
eu só queria a sua aprovação.

Eu não sabia se me sentava comportadamente,
joelhos bem juntinhos,
mãos cruzadas no colo,
como ensinavam as freiras no colégio,
e aceitava uma xícara de chá,

ou se cometia o sacrilégio
de arriscar um vôo solo,
me atirava, felina, no sofá,
pés descalços sobre o braço do estofado
e olhava para o lado,
para o bar,
com um olhar cheio de interrogações irônicas.

Eu não sabia se encarnava a personagem
das HQ que estão na sua estante,
a heroína urbana nervosa e agitada
que nunca dorme e está sempre a mil por hora,
ou se vestia a imagem
da mulher rasa, chã,
perfeitamente plana,
que se deita às dez da noite,
levanta às seis da manhã
e sai de casa sem nem ler o jornal,
porque afinal
é tudo sempre igual,
como nas tiras cômicas.

Eu estava mesmo bem desnorteada,
nem um pouco preocupada em ser autêntica,
queria tudo e não queria nada,
queria ser a sua musa excêntrica,
a moça do calendário,
e a faxineira invisível
que pega no armário
debaixo da escada
uma flanela e a cera
para deixar a sua casa um brinco.

Eu queria ser uma mulher bem sólida,
una, indivisível, coerente,
e queria também ser cinco
ou talvez dez,
assumir todos os papéis,
ser a sua irmãzinha confidente,
a professora autoritária,
a mãe doce, carinhosa e necessária,
a amante que conhece você profundamente
e que você leva ao delírio quando quer,
a esposa submissa,
e também a vizinha assexuada
que te diz para ir à Missa.

E enquanto esperava, parada
no portal do hall de entrada,
tentando tomar uma decisão,
olhando a sua sala iluminada
como quem do limbo enxerga o paraíso
(você de costas fumava um cachimbo)
achei que era melhor criar juízo
e nem entrar.

Eu só queria a sua aprovação;
te impressionar.
 

VESTIDO II           voltar
 
Pois é - o que supunhas?

Às vezes fico assim, bem-comportada,
saia plissada, um pouco abaixo dos joelhos,
e nas unhas,
em vez dos tons vermelhos,
uso estas cores claras, nacaradas.

Às vezes fico assim: bem maquiada,
mas tão discretamente...
Limito o rosto com brincos de madame
– e brinco que inda assim há quem me ame,
mesmo contida, formal, séria, reservada.

E quando estou assim nem se pressente
sob o verniz dos gestos controlados
meus precipícios, o espanto adolescente
com cada pôr-de-lua em madrugada,
cada renovação do sol nascente,
com tudo, quase tudo. E com pequenos nadas,
com ínfimos detalhes comoventes.

Então: o que pensavas, afinal?
Às vezes passo assim dias inteiros:
tailleurs de tafetá,blusas de linho

- e a alma e o coração, meu companheiro,
descabelados,
em permanente e completo desalinho.
.

O FIO DA MEADA           voltar
 
Retomo o fio da meada
no ponto em que se partiu.
Foram doidices de fada,
pedras no fundo de um rio.
 
Retomo este pensamento
no ponto em que o abandonei.
Pedras no fundo do rio?
Foram loucuras do rei.

Reato o nó dos cabelos
no ponto em que se desata.
Eram pedras ou rubis?
Tonteiras de magnata.
 
Rubis, pérolas, safiras...
- e eram meros grãos de areia!
Quem se enganou a tal ponto?
Exageros de sereia.

Uns seixos tão pequeninos
nem riscam esta água inquieta.
Quem se empenha em recolhê-los?
Desatinos de poeta.
 

PORÉM           voltar
 
Um homem
deve às vezes restar quieto sobre a cama,
com os olhos entreabertos
e um sorriso quase irônico nos lábios
e permitir que alguém, em gestos rápidos,
lhe desfranza o sobrecenho contraído,
alise a linhas do semblante carregado
e depois trace desenhos, levemente,
com as unhas e os dentes,
em sua pele fina e delicada.

Homens detestam que alguém lhes diga
que têm a pele fina e delicada.
Porém, se andam sempre tão vestidos,
de terno ou jeans,
camisa abotoada,
no máximo com a manga arregaçada,
tão protegidos do sol, dos poluentes,
como querem que seja diferente?

Uma mulher caminha exposta,
ombros à mostra,
vestidos curtos, acima dos joelhos,
e a pele torna-se, naturalmente,
- não mais grossa - porém mais resistente
e, pelo efeito da erosão dos ventos,
talvez mais lisa até.

E bronzeada,
acostumada aos raios ultra-violeta
e à poluição.

Já homem, não.

Então a pele é clara, é claro,
e lisa, por que não?
Homem, sabe-se lá por que,
adora ser durão.
 

TERRA           voltar
 
Escuta, amigo:
a noite não te dá maior verdade
do que aquela que encontras em ti mesmo
nem tua lágrima redime os outros homens.
Enquanto a Terra te conservar preso,
não serás mais que sal e pó, e pó e sal
que o vento leva e o mar dissolve em ondas.
Coisa nenhuma importa mais que o tempo,
e o tempo é morto sem que o percebamos.
 
A luz é rápida e incompreensível;
o mais é vida – o irremediável.
As coisas são os rios,sempre móveis,
dessa inquietude amorfa e absorta.
Nós somos nós somente, até a morte:
o absoluto que jamais se aceita
como é –única e perpétua liberdade
imortal e perfeita.
 

DEVOLUÇÃO              voltar

Eis o teu homem de antigamente:
aqui o tens restituído.
Toma cuidado
que ele é de vidro.
 
Toma cuidado:
Foi construído
nessa matéria que é fogo e areia.
Numa queda,
fragmentar-se-á
de forma incrível.
 
Eis o teu homem,
pouco mudado:
nem mais altivo, nem mais cansado.
 
Mas sob a pele translúcida,
mas através do seu corpo,
navegando em suas veias,
refletidas no seu rosto,
nos olhos dilacerados,
nunca lerás que lembranças
galopam, desatinadas?


ENCONTRO              voltar

Com olhos secos,
te vejo e me recuso
a acreditar.

Com voz segura,
explico que não posso
demorar.

Com dedos frios,
despeço-me e despeço-te
num gesto.

Com passos firmes,
afasto-me depressa.

O coração
quer dormir e não encontra
posição.


HORIZONTE           voltar
 
O horizonte é o mesmo.
Mas há esta nova claridade que me sufoca o olhar.
Caminho a esmo.
Hoje não quero pensar.
 
É que mudou a lua,
e tudo se transforma.
Cobre-se a Terra de uma terra nova
e as marés se tornam violentas.

Somente eu vou lenta, lenta.
Concentrada em não chorar.
 
Não que tenha perdido a alegria
por completo:
o caminho não havia de sempre reto
e eu já sabia disso muito antes
de decidir te acompanhar.
 
Mas agora, a noite me tomou.
E eu me tornei, subitamente,
o que não sou:
sem norte, sem destino.
O que se extraviou,
de mim, por esta estrada?
Eu vinha te seguindo e não te vejo mais.
E estava tão habituada.
 
O horizonte é o mesmo.
Só lhe falta
a longa silhueta que eu seguia
e contemplava.
 
É que mudou a lua, e tudo se transforma.
Somente a linha do horizonte permanece inalterada.
 

LENDA           voltar
 
Houve tempo em que te não conhecia,
e em que escutava, entre descrente e fascinada,
as estórias – lendas – que de ti se ouviam.
 
Houve um tempo em que teus gestos me assombravam:
ao ritmo da música moviam-se tuas mãos,
e a cada instante eu aguardava os pássaros
que certamente brotariam dos teus dedos.
 
O sorriso com que então te contemplava
era o mesmo sorriso expectante e fixo
que em criança tive apenas para os mágicos.
 
Falavam-me de ti como quem fala
de um deus.
Como quem ouve falar de um deus,
eu os ouvia:
imóvel, tensa, esquecida
de tudo.
Suspensa a cada palavra,
perdida em cada minúcia
e comovida.
 
E mais comovida e tensa
na tua presença.
O tempo que passou sobre nossas cabeças,
transformando o mundo,
foi demais.
Mas ainda te conheço e tu me conheces,
porque somos iguais.
 
Iguais como párias irmãos.
Irmãos? Amantes
desatinados.
 
Como inimigos mortais,
como cavalos selvagens,
mas certamente,
por hoje,
como dois loucos adolescentes
perdidamente
enamorados.
 

FIM DE FESTA           voltar

Havia vento.
Era o momento em que talvez o sol nascesse,
mas em vão aguardamos que viesse.
 
Havia vento e, à minha volta, tanta gente,
que minha solidão era um mistério.
(Que eu me sentia uma figura solitária,
uma figura pequena e esquecida
na imensidão macia do gramado.)
Havia vento,
fazia frio,
e eu estava - sabe? - tão cansada!
 
Era um fim de madrugada.
A grama estava úmida e gelada.
As pessoas pareciam tão distantes!
E, súbito, cobriu-se o universo
de um silêncio tão grande,
de um tão intenso silêncio sossegado!
 
Eu não sentira nunca, meu amor, tanta saudade.
 

DEDOS DE VIOLINISTA           voltar

Dedos de violinista não existem.
É pura lenda,
o que se diz que faz seu toque num corpo de mulher.
Dedos de violinista classificam-se,
como os duendes e as fadas,
nessa categoria de personagens misteriosos,
seres de fantasia
que há quem jure ter visto em noites encantadas.

Mas a poeta, a cética que nunca viu nada,
não crê que existam.

(Uma vez pensei ter visto, sim:
em uma noite assim, enluarada, clara,
acordei sobressaltada:
alguém me chamava, do jardim.
 
Abri uma fresta na janela:
junto ao muro coberto de hera,
num canteiro de musgo
– onde o luar desenha rendas sob as primaveras –
parecia escorrer, sob uma pedra,
uma luz azulada.

Desci as escadas, intrigada,
vestindo às pressas uma túnica sobre a pele nua.
Lá fora,
a noite era acariciante
como deveria ser o toque de um amante.
A noite me envolvia, confortável.
 
Levantei a pedra com cuidado:
uma diminuta criatura alada,
translúcida e sutil,
molhava os pés numa gota de orvalho.
Olhou para cima. Riu.
Foi para mim?
Depois, com dia claro, eu não sabia
se tinha mesmo visto isto
ou se sonhara.)

Dedos de violinista são assim:
se alguém disser que os viu, que percorreram
num arrepio a pele eletrizada,
duvidem, ah, duvidem!
É mentira
ou é delírio:
percorreram nada.
 

GOLE           voltar
 
Toma um gole de mim que te sustente
por mais uma semana, um mês talvez.

Um hausto de palavras transparentes,
tela translúcida através da qual me vês
como uma silhueta, simplesmente.

Uma mulher que pensas conhecer?

Me deixa bêbada de ti. Por um momento,
quando te afastas,sei que vou morrer
de uma ressaca dessas violentas,
que fazem viciados renitentes
jurarem a si mesmos nunca mais beber.

Mas sei e sabes que estou sempre aqui,
e que sou e serei reincidente.
 

REUNIÃO DE TRABALHO           voltar
 
Guardo umas irrelevâncias
para soltar como pérolas
sobre a mesa de trabalhos
nas ocasiões mas sérias.

Provoco escândalo e escárnio.

No auge das discussões,
murmuro, com meus botões,
trechos de Dante e Petrarca.
Por falta de referências,
quem percebe as citações?

E quem, em sã consciência,
pleno uso da razão,
com os quatro pés no chão,
convocaria a poeta
para esta reunião?
 

MONTANHA           voltar
 
Uma luz forte como a luz do dia,
mas não de um dia qualquer:
um dia de montanha, e uma montanha
a cujos pés ascetas se ajoelham
ao atingir o entendimento pleno;

onde cada molécula inorgânica
reflete a luz do sol e cada átomo
de metal incrustado nas encostas
transforma-se em espelho e rocha ígnea
que queima e corta os pés dos alpinistas.

Uma luz tão forte, então, eu te dizia,
que me fez cobrir os olhos com as mãos,
e mesmo através das mãos feriu-me a vista
de uma cegueira longa e irreversível
ao atingir o fundo da retina;

e me crestou a pele com seu brilho
estes tremores, espasmos e arrepios;
e a sensação final era de frio,
o frio que é fatal,
total e absoluto,
o zero grau
na escala Farenheit.

E foi inútil que no alto da montanha
os eremitas deixassem suas grutas
e aos gritos me avisassem do perigo,
pois já a luz invadia-me os ouvidos
apagando-me os registros da memória
e reduzindo toda a informação
a zero bytes,
num disquete sem rótulo e sem formatação.

Uma luz tão forte, então, eu te dizia,
que eu soube enfim como é que te sentias.
 

COSMOGONIA           voltar
 
Ah, esse corpo que tanto desejo;
esse teu corpo que desejo tanto!

Vou te cobrir de estrelas,
cada estrela um beijo,
e te deixar assim, todo estrelado,
aberto em minha cama;
teu corpo um mapa
da cosmogonia do desejo,
espaço siderante onde viajo
e siderada me perco,
nave extraviada,
em órbitas concêntricas
fora do alcance de qualquer resgate.
 

RAIO LASER              voltar

Existe um brilho que só eu posso te dar
e que vem dessa atenção individida
que concentro no olhar
quando quero e me sinto querida.

E depois que você se acostumar
a um raio laser pincelando sua vida,
pode estranhar
e sentir falta dessa dança colorida
iluminando o ar,
se o feixe de luz se desviar.

(A brincadeira era muito divertida.)

Te fazem falta,
as luzes da ribalta?
 
Não que se note,
mas o foco do holofote,
marcando um círculo de luz sobre o tablado,
acompanhando o seu sapateado
- esse show particular
que você gosta tanto de encenar -
ao apagar-se deixou tudo sem graça?
Não se preocupe: isso passa.


CHARME           voltar
 
Dentro do raio de ação
desse charme,
pergunto-me por que não
imunizar-me.
 
“É o princípio da vacina,minha filha”,
“Expões-te ao vírus,ao veneno, e em pouco tempo – maravilha! –
ficas protegida”

“Mas que ingenuidade comovente!” ,
explode, às gargalhadas, meu inconsciente.
“Não percebes então, louca, cega, ignara,
que não serás a mesma
ao sair desta sala?”

Ao que retruca o superego,
contrafeito:
“E eu que pensava tê-la educado
tão direito!
Parecia já tão bem treinada!
Mas vê-se agora: não aprendeu nada!”

“Tolices”, respondo, ríspida e confusa.
“Tolices dessa cabeça de medusa,
alma de mil serpentes,
que te habita, inconseqüente!”

E o superego, condescendente:
“Crês, na verdade;
crês, realmente,
que tua simples vontade
de fêmea
possa resistir ao charme incandescente
dessa tua alma gêmea?
Pois é isso que sois,
os dois....”

Mantenho-me então,
por precaução
(sou mesmo assim, prudente),
bem próxima ao limite do círculo de ação
desse charme indecente.
Não é que acredite,
realmente,
que tanto alarme tenha procedência.
Mas, numa emergência,
não me rendo:
afasto-me correndo.

Só que – ai! –
me atrai....
 

TRAVESSURA              voltar

Brilhantes nas orelhas,
os ombros descobertos,
nas longas unhas,
vermelho cardeal.
E digo disparates,
e tudo me diverte.
No cocktail-party, 
wearing the latest fashion,
sou sempre mais segura. Afinal, 
sei, quando me convém,
melhor do que ninguém,
ser fútil, leviana
e superficial.

Mas não me julgue mal:
com olhos carregados de censura
você estraga a minha travessura.


CRISTAL           voltar
 
Deixa meu sorriso entrar feito um punhal
nesse teu coração, pedra de sal
onde nada frutifica nem floresce.

Deixa assim: um sorriso permanece
depois que todo o resto, por igual
se aplaina sob os ventos da memória.
O vendaval
que passou por sobre a tua, a nossa história
transformando em planície, em areal
deserto e árido aquilo que afinal
tinha um relevo
definido, sensual,
contorno original,
topografia própria.

Sei que não devo,
que não deveria,
mas cravo inda mais fundo este punhal
e giro a lâmina à medida que a retiro:
não por mal
e nem por covardia.
É um movimento natural
do pulso, essa torção.
 
Aguardo em sobressalto alguma reação:
em vão.
Nenhum sinal vital se manifesta.
Já não há nada (ou nunca houve) nesse coração.

Mas não:
no fio do punhal,
um minúsculo cristal ainda resta.
Toco-o com a ponta da língua, com cuidado,
por curiosidade:
sem saudade,
sem ódio.

(É verdade:
é mesmo puro sal
de sódio.)
 

QUE SEJA           voltar
 
Está bem: que termine, que termine!
Se tem que ser assim... Enfim: que seja!
 
Que não mais o meu verso te ilumine
e nem tua magia me proteja
das coisas que não temo e em que não creio.
 
E os beijos de hortelã e de cereja
que trocaríamos noutra realidade,
que fiquem para sempre relegados
ao território das impossibilidades.

Não sou de ter saudades do passado,
mas do futuro, sim, terei saudade.
 

SUMIÇO           voltar

Vou desaparecer da tua vida,
e ela vai ficar tão aborrecida!

Vou deixar a tua vida lisa e plana,
sem graça como um início de semana,
uma semana dessas bem compridas,
sem expectativa de alegrias.
Uma sucessão de dias desbotados,
tardes frias,
noites descoloridas, madrugadas
pálidas e mal dormidas.

Vou sumir até mesmo dos teus sonhos,
não vou aparecer nem em delírios;
tenho planos detalhados e perfeitos
e quando os descobrires
será tarde demais,
não vai ter jeito:
tudo vai parecer tão desenxabido,
tão tristonho,
tão desprovido de finalidade...
 
E quando não houver nada que te agrade,
te interesse,
todos dirão que é depressão, estresse,
mas nós dois saberemos que é saudade.
 

OLHAR           voltar
 
Vou começar do começo:
em primeiro lugar,
um olhar, você sabe, não tem preço;
não é algo que se possa avaliar,
pagar com cartão credicard,
visa internacional, amex,
com um ou vários cheques,
cheque especial
e coisa e tal.
 
Não insista:
um olhar não se compra
nem à vista.

O meu é meu e eu carrego
para onde vou:
cedo, empresto, dou,
entrego
quando quero.

Deixando de lero-lero:
o meu olhar, como o Amor, é cego,
não escolhe com discernimento a quem se dar.
 
Um olhar é uma jóia em si:
não se troca por diamante nem rubi.

Como o Amor e a Justiça,
que vive sempre vendada e não vê nada,
mas leva espada e balança,
o meu olhar não se cansa
desses duelos de capa-e-espada
tipo folhetim
– cada romance chinfrim!
“Entre les deux mon cœur balance” – 
mas cada vez que o espadachim 
descendo a escada de lance em lance
derruba um adversário,
percebo que a lança
é um mal necessário.

E voltando ao assunto,
olha: o meu olhar não vou vender,
eu sinto muito,
doa a quem doer.
 

RISCO           voltar
 
Sempre correndo riscos.
Nunca choro.
Isto? Não são lágrimas, não.
Foi só um cisco
no meu olho, juro. (Eu adoro
você, cara.) Mais uma vez me arrisco:
encaro o salto no escuro.

Aterrisso
nos seus olhos? Não:
Lá, no olho do vulcão,
no fulcro do furacão,
no centro da tempestade.

Um lado de mim tem os pés sempre no chão,
sonhos sensatos, maduros.
Um lado é a realidade.

O outro lado desvaria quando salta:
entra em órbita em torno de Saturno
e nunca volta à Terra. Nunca mais.

Provoco maremotos, à distância:
diluo o seu olhar nos Oceanos.

Em conluio com a Lua,
desencadeamos você e eu essas marés azuis que têm invadido os continentes,
provocando pânico.

Quero sim ser sua,
e o resto do Universo que se dane.

(O Sistema Solar entra em pane)
 

DIÁLOGO DE OTHELLO E CORO             voltar

OTHELLO:
- Desejo que todos saibam:
aquela mulher macia
me pertencia.
Amava-me e nos momentos mais tranqüilos dividia
comigo seus pensamentos
sinuosos de enguia.

Eram meus os cachos doidos,
indomáveis,
e as carícias sempre prontas
na pontas dos dedos frágeis.
Com que miragens
me enternecia!
 
CORO:
 - Quem?
Que mulher é essa,
que te pertencia?
Que mulher foi essa,
que te pertenceu?
E quando?
Nas tarde de insônia?
Nas noites de frio?
E onde?
No mar, no chuveiro?
No escuro?
E como?
No mais puro
e simples e perfeito e verdadeiro
abandono?
O que?! Então ninguém te disse, companheiro,
que essa mulher não teve dono, mas prisioneiro?


EXPLORADORA           voltar
 
Me crava no teu chão feito bandeira
informando a piratas e que tais
que já uma fragata brasileira
atracou no teu solo: nunca mais
te vais livrar da alma aventureira
a explorar-te as praias ancestrais
palmo a palmo,
légua a légua,
milha a milha,
inundando de sol a quase ilha
com risos e requebros tropicais.
 

PLANOS PARA O MILÊNIO           voltar
 
Não estarei em tua casa, quando voltares cansado do trabalho.
Não estarei deitada em teu sofá, lendo os jornais do dia, à tua espera.
Não estarei sentada na calçada, a cabeça apoiada nos joelhos,
esperando teu carro aparecer.

Não estarei também ali na esquina,
segurando uma faixa em que proclamo
minha determinação em prosseguir te amando
haja o que houver.

No próximo milênio,
não estarei em permanente sobressalto,
procurando teu nome na lista de escolhidos
para embarcar na nave para Júpiter.

Neste próximo milênio, isto eu garanto,
vou estar muito tranqüila.
Serei apenas uma poeta estarrecida
com a própria capacidade de esquecer-se
da tua pele,
dos teus olhos,
do som da tua voz,
de cada detalhe das tuas mãos quase transparentes
apoiadas sobre o mapa circular da minha vida,
determinando meu futuro e meu presente.
 

SÓRDIDA           voltar
 
Tachei de sórdida a literatura,
mas foi só por revolta contra mim.
Que direito tenho eu de andar assim,
colhendo arame farpado nas estradas,
enrolando-o em rolos comportados
que fazem sangrar tanto as minhas mãos?

Enquanto ri-se o gado, liberado,
e invade os canteiros descuidados
das autobans.

Caminhante prossigo, obcecada,
obsessiva na missão que me propus:
retirar qualquer barreira à doce liberdade
do gado humano,

fazer jus
à tarja anárquica com que fui rotulada.

Sei e sabemos das trocas necessárias,
dos escambos matreiros por trás das fachadas
respeitáveis.
Que direito tenho eu de andar assim,
subvertendo o mal como se mal não fosse?
Interpretando o mal como um caminho
para a doçura inevitável?
O mal.